Eu fiquei surpreso por ouvi-lo dizer essas palavras, afinal, como
poderia alguém achar aquela noite tão comum como às demais? Na noite anterior,
por exemplo, eu estava com minha esposa passeando pelo centro da cidade e
observando os belos enfeites de natal, isso sim soaria normal para mim. Agora, estar de tocaia no alto de um
arranha-céu no centro de São Paulo justo na noite de natal, isso, sinceramente,
nunca seria normal. Não resistindo ao seu comentário retruquei-o:
- Porque você diz isso?
- Jovem. O dia que você
compreender o real sentido dessa afirmação, estará abrindo os olhos pela
primeira vez.
Essa metáfora era tudo o que faltava
para a minha noite ser corrompida de uma vez por todas. - Ele deve ter a minha
idade e só por estar no comando já se sente no direito de me chamar de “jovem”
- esse foi o primeiro pensamento que veio a minha cabeça naquele instante e
quando estava para responder a altura, um vento gelado correu pelo meu corpo e
pude notar o como a minha situação já estava desagradável, a piorar seria muita
estupidez. Optei por mudar de assunto:
- Afinal de contas, o que estamos esperando?
- Más companhias.
Era obvio que esperávamos más
companhias, por que outra razão eu seria acordado às quatro horas da manhã e
estaria armado ate os dentes junto à tropa de elite do batalhão anti-seqüestro?
Essa resposta quase me fez arremessá-lo do alto daquele enorme prédio.
Felizmente a minha razão voltou antes de mover um único dedo. Foi então que prestei atenção pela primeira
vez naquele homem, parado justamente na beirada do prédio, tendo metade do seu
pé para fora do mesmo. Ao me dar conta disso sentiu um incomodo frio na
espinha, ainda porque o infeliz mantinha uma delirante calma, me levando à
loucura. Mais alguns instantes observando aquela cena arrepiante e eu o teria
empurrado com as minhas próprias mãos, só para me livrar da aflição que sentia,
mas foi então que ele voltou a falar, como se estivesse retornando de uma
meditação que perdurara por muitos dias:
- Eles chegaram.
Esgueirando-me cuidadosamente pude notar
um grupo de jovens que caminhava rapidamente pela avenida principal. Eu poderia
esperar qualquer coisa, mas um grupo de jovens? Senti-me ridicularizado ao
pensar que teria movido um dos melhores batalhões da policia somente para
enfrentar tais inofensivos indivíduos, porém aquela noite já havia desgastado
todas as minhas forças e não tive se quer vontade para discutir e me submeti ao
estranho homem, evitando complicações:
- O que faremos?
Chame a atenção deles, mande o seu melhor atirador acertar aquele de
branco.
Apesar de lidar com a morte todos os dias, essa não era bem uma coisa
agradável. Agora eu deveria escolher o maldito infeliz que seria o carrasco a
matar o aparentemente inocente jovem que caminha junto aos seus amigos. Missão
terrível essa. Todos os soldados me olhavam com ar de obediência e submissão
para o qual haviam sido treinados, mas no fundo eu sabia que todos pediam para
não serem escolhidos. Tudo não passou de alguns míseros instantes, que representaram
uma das piores decisões de toda a minha vida. Por fim escolhi o “Silva”, ele
era o melhor de todos.
O soldado respondeu prontamente e
apontou o seu fuzil contra o alvo, um alvo tão fácil de atingir que a covardia
o fez hesitar por alguns instantes, coisa que pude notar, mas não reprimi em
respeito ao pobre homem que provavelmente não dormiria essa noite. De certa
forma esse meu raciocínio não estava completamente errado, ele realmente não
dormiu naquela noite, alias, nunca mais. Por quê? Bom, deixe-me continuar com a
história.
Após aqueles terríveis instantes de
silencio e atenção penetrante de todos, o disparo foi dado, tendo o seu som
quase totalmente anulado graças ao silenciador que completava o cano.
Observando atentamente eu sabia que errar aquele alvo seria tão estúpido quanto
não conseguir colocar a tampa na caneta, porém, por mais que eu estudasse
secamente o jovem que estava lá embaixo, ele não caia, apenas interrompeu o seu
caminhar despreocupado, sendo seguido pelos seus companheiros. Eu já estava
praticamente ordenando o próximo disparo quando aquele homem estranho
interveio:
- Não desperdice mais as suas balas, elas serão necessárias em
breve. O seu soldado atingiu
perfeitamente o alvo, o que chamou a sua atenção, sendo esse o nosso objetivo.
Prepare seus homens para um confronto direto.
Agora o Federal estava abusando da minha boa vontade. Como poderia ele
afirmar que o tiro havia atingido o alvo e que lhe havia chamado à atenção? É
como se um tiro de fuzil fosse tão inofensivo como uma mamona atirada com um
estilingue. Esse pensamento acompanhou o meu crescente ódio com relação aquele
cretino, porém eu ainda avistava os jovens e pude ver todos eles nos observando
de baixo.
Por mais distante que nós estivéssemos e por mais limitada que seja a
minha visão, seria impossível não ver aquele rosto tão macabro e assustador que
nos encarava sem expressão a muitos metros abaixo de mim. Apesar dessa visão terrível dos jovens, a
distancia garantia a todos, uma sensação de segurança que nos permitia
continuar a observá-los, porém essa sensação era completamente falsa. Em uma
questão de instantes todas as maiores crenças que conduziram a minha vida ate
aquele momento foram jogadas contra a parede e pude presenciar coisas as quais
eu jamais poderia imaginar, nem mesmo em meu pior pesadelo.
A gravidade parecia não fazer nenhum
efeito contra aquelas criaturas, digo criaturas porque ate hoje não sei ao
certo o que eram. Lembro-me com
perfeição do movimento impossível ate mesmo para um atleta olímpico que os
seres realizaram. Saltando provavelmente
uns dez metros antes de começarem a correr pelas paredes daquele enorme prédio
vindo em nossa direção. Sim, eu disse correr pelas paredes, e estou certo do
que vi. O Federal ordenou que todos abrissem fogo contra as criaturas, e assim
o fizeram tão logo se recuperaram do choque.
Apesar de todos os nossos tiros, somente uma das criaturas foi derrubada
e, instantes depois, todas as suas companheiras já dividiam aquele grande platô
que agora parecia ser tão pequeno para nós, principalmente por considerar que
queríamos fugir, mas não tínhamos para onde.
Metade do batalhão foi exterminado somente no instante em que as
criaturas atingiram o topo do prédio, os demais atiraram sem trégua para todos
os lados, porem as criaturas era velozes a um extremo que nos impedia de agir
com eficácia. Por outro lado o Federal parecia aceitar toda aquela situação com
a mesma calma de uma criança ingênua que coloca a mão no fogo sem temê-lo,
disparando muito menos que qualquer um de nós, mas, por incrível que possa
parecer, acertando muito mais.
Sou obrigado a assumir que aquela
situação estava além do que minha mente poderia suportar, acabando por entrar
em pânico. Eu não podia mais disparar um único tiro se quer, mesmo com o pente
praticamente cheio, da mesma forma que não podia mais ficar de pé, mesmo em
perfeito estado de saúde, porém ainda podia observar tudo o que acontecia a
minha volta, apesar de somente conseguir associar todos aqueles sons e imagens
algum tempo depois.
Resumindo, a chacina acabou sacrificando todos os meus homens, exceto um
que, no auge do desespero, cuidou de se atirar do alto do prédio tendo uma
morte ao menos mais interessante. Quanto às criaturas, ao que tudo indicava,
todas haviam morrido. Algumas poucas pelos tiros dos soldados, mas, sem
duvidas, a maioria havia sido friamente assassinada pelo Federal. Falando nele, o mesmo estava parado alguns
metros a minha frente, não aparentava ter se quer se arranhado, apesar de estar
todo suado e bufando como um cão. Tudo parecia ter finalmente acabado, mas pela
sua expressão eu entendi que ainda havia algum assunto inacabado. O mesmo
resmungou:
- Falta um. Não o encontro. Odeio isso!
Mal terminara de falar e fora atingido pelas costas pelo que parecia ser
a ultima das criaturas. O mais incrível dessa situação era o fato de o ser
tê-lo atravessado o corpo usando apenas um cabo de vassoura. Perplexo o Federal
caia de joelhos sobre o chão, de frente para mim; só teve tempo de sussurrar
algumas palavras e cair, agora como um corpo sem vida.
A criatura respirava fundo,
provavelmente aquele combate também exigira um grande esforço de sua
parte. De uma forma inexplicável o meu
pânico havia fugido. Provavelmente observar uma cena tão impressionante como
aquela me levara a esquecer de tudo, ate mesmo do medo da morte. Foi apenas uma
questão de instantes, porém, para que todo o horror voltasse e agora muito mais
forte e terrível do que antes. A criatura me observava.
Enquanto me encarava misteriosamente ela
caminhou ate os meus pés. Eu tentava instintivamente prever os seus movimentos,
a ponto de um simples levantar de braços da mesma ser o suficiente para que
todo o meu corpo se contraísse buscando proteção. Quando abri os olhos
novamente notei que ela não estava mais lá. Acredito que toda essa covardia ao
final das contas havia me salvado. Provavelmente a criatura teve pena da minha
pessoa, ou simplesmente não teve vontade de matar-me. Como poderei saber? A felicidade que tomou o meu corpo foi tanta
que cai em choro, um choro soluçante que se manteve ate mesmo quando as equipes
de resgate chegaram. Apesar de toda essa situação horrivelmente trágica e
aterrorizante, a coisa que mais mexeu e continua mexendo comigo ate hoje foram
os últimos sussurros do pobre Federal:
- Essa é uma noite como todas as outras.
Por: Victor Allenspach de Souza
Por: Victor Allenspach de Souza
Nenhum comentário:
Postar um comentário