segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Uma Sucúbo em Êxtase


Era uma noite fria de inverno, na cidade de Nova Iorque. Caminhando entre as pessoas um homem alto, de longos cabelos loiros, presos num rabo de cavalo. Vestia uma jaqueta jeans azul, uma calça também de jeans azul, óculos escuros, tênis. Era bonito, tinha um porte atlético. Seu nome era John Engels. Ele é um detetive particular, mas hoje está em seu dia de folga. Caminha pelas ruas, em meio à multidão frenética. 
Uma garota vestindo uma roupa colante preta entrega um panfleto. Era de uma nova casa noturna, que havia sido inaugurada. A casa em questão se chamava “Blood Doll”. Engels resolveu ir até lá conferir como era a casa noturna. 
Chegando lá, ele vê uma fachada bonita, em néon azul e vermelho, escrita “Blood and Darkness”. Local bonito, mas todo aquele preto incomodava Engels, mas mesmo assim reparava na beleza do lugar. 
Ele entrou na casa, após pagar a taxa e ser revistado por um segurança. Pelo menos o local era seguro. O local lembrava uma masmorra medieval, com todo aquele preto, correntes, uma luz roxa indireta. A casa tinha três ambientes distintos, separados por uma es-cada cada um. O primeiro ambiente tinha pessoa vestindo roupas pretas, algumas de vinil e outras de couro, usavam correntes, crucifixos e toda a sorte de penduricalhos macabros. 
   
“Here are the young men, 
a weight on their shoulders 
Here are the young men, 
well where have they been? 

Estava tocando uma música muito alta, mal se podia pensar naquele ambiente. Mas era no mínimo inusitado, Havia garotas se beijando entre si, o que para Engels não causava muito espanto (ele vira coisas muito mais depravadas de onde veio). Não era uma orgia por assim dizer, mas que chocaria muita gente. E eram meninas novas, não pareciam ter mais de dezesseis anos, mas Engels preferia deixar quieto.

We knocked on the doors 
of hell's darker chambers 
Pushed to the limits 
we dragged ourselves in 

Começava a reparar que também muitos homens começavam a chegar, dada certa hora da noite. “Góticos”, foi o que pensou Engels. Nunca entendera a razão de jovens ficarem vangloriando tanto a morte. 

Watched from the wings as 
the scenes were replaying 
We saw ourselves now as 
we never have seen 
Portrayal of the traumas and degeneration 
The sorrows we suffered 
and never were freed 
Where have they been” 

Resolvera ir a um ambiente mais calmo. Aquele era muito barulhento. Percebera que naquele ambiente, que era um pouco mais discreto, estavam reunidos executivos. Tocava uma música ambiente, pessoas mais bem vestidas estavam lá. Era mais agradável. 
Tinha um balcão, onde um homem loiro, muito bem vestido, fazia os drinks. Engels pediu uma bebida e pagou. Conversou com algumas pessoas e, mais tarde, viu uma porta na escada, cujo um cartaz dizia que a área acima só podia ser visitada mediante pagamento de uma taxa adicional e sendo maior de vinte e um anos. Engels mostrou sua carteira de identidade, pagou a diferença e subiu. 
O último andar era um clube noturno, onde rolava Strip-tease e tinha aquelas cabines de Peep Show. Havia muitos homens e mulheres por lá. Apesar da alta carga de eroti-cismo que tinha no local, ele era agradável. Rolava musicas dos mais variados estilos. 

“Queen of all my sleepless nights 
For whose beauty I, Faun 
have played my pipes, with heart 
Queen in white silk, skin like milk 
Horns of Faun, lips of dawn 
You are now honoured you with my presence 
As I'm honoured by your sight 
I crown your perfection 
The predator in your breast, I devour 

Começava uma sessão de Strip-tease. A primeira era uma mulher deslumbrante, de nome Melissa. Estava usando uma roupa negra provocante, que parecia muito com uma roupa medieval, uma espécie de espartilho. Seu corpo era deslumbrante, a roupa lhe era muito apertada para seus dotes físicos. Ela era baixa, não mais que um metro e sessenta, cabelos louros até a cintura, lisos, olhos verdes como duas grandes esmeraldas, uma pele levemente bronzeada, o que dava um toque exótico à moça. Possuía grandes e vermelhos lábios, voluptuosos. Os homens ficavam encantados ao vê-la. 

From where it burns spirals of exotic scents 
Rose, sandal, jasmine, all kinds of incense 
Aged fragrances only dreamed of once 
Dragons do dream far beyond the sense 
We make love in the dusty throne 
of a Modern Sodoma 

Ela era desejada por muitos ali no recinto. Mas após o Strip-tease, ela se aproximou de John e sussurrou em seus ouvidos: 
— Muito bem, querido. Gostaria de ter algo mais quente para tua noite? 
Engels respondeu, tremendo: 
— Não, senhorita. Eu não... 
— Silêncio — disse Melissa, com sua voz doce e delicada. - És muito bonito, cavalheiro. Venha comigo, mostrarei como tua noite valerá a pena. 
Normalmente Engels não aceitaria. Mas algo naquela mulher o fez aceitar. Ele tre-mia e muito. A mulher, delicadamente disse: 
— Como se chama, meu amor? 
— John Engels. 
— Nome bonito e elegante. 

Daylight has broken into a strange nostalgia 
Night tired candles seem like two lovers 
Melt in a embrace of conspiracy 
Between us there is this strange chemistry 
but would you die for me? 
would you die for what I've longed to be?” 

Foram até um quarto. Era luxuoso, com uma cama muito grande, com lençóis roxos, 
espelhos. Dava para escutar um pouco da música que estava tocando no terceiro piso. 

“The scent of a woman was not mine... 

Welcome home, darling 
Did you miss me? 
Wish to dwell in dear love? 

Ela começou a tirar a roupa de Engels. Tirou-lhe os óculos e se deslumbrou com os belos olhos azuis de Engels. Parecia como se nunca tivesse visto olhos tão bonitos. Come-çou a beijá-lo, que estava ainda um pouco relutante, mas aos poucos ia cedendo. 

Touch my milklike skin 
Feel the ocean 
Lick my deepest 
Hear the starry choir 

Rip off this lace 
that keeps me imprisoned 
But beware the enchantment 
for my eroticism is your oblivion” 

Quando estava quase pronto para transar com ela, algo súbito ocorre. Ele começa a enxergar um veio negro na aura dela. Como que por milagre sua habilidade de enxergar através das auras tinha sido acordada. Rapidamente, sem camisa, deu um salto para trás.   — Está com medo — perguntou a mulher, com um sorriso maldoso nos lábios.   Engels se sentiu um pouco mais fraco. A mulher havia lhe roubado um pouco de sua energia vital. 
  — Venha, meu amor — falava a mulher, suspirando um pouco — venha e se entre-gue a mim! 
  — Saia da minha frente — gritou Engels, com seus olhos começando a emitir uma 
luz branca e azul. 
— O que é você — diz a mulher, impressionada. 
— Eu te faço essa pergunta primeiro, demônio!!! 
A mulher ficou um pouco assustada. De repente surge na mulher um belo par de a-sas de couro, como as de um morcego. Sua silhueta fica um pouco mais diabólica, mas ain-da sim muito sensual. 
— Maldita sucúbo — resmunga Engels. 
— É o que sou  — fala a mulher, com um olhar malicioso sobre Engels. -  E o que és, afinal de contas? 
— Deverias saber quem sou, criatura de Lilith! 
— Como sabes de minha mãe? 
Então ela percebeu que John era na verdade Helaziel. Um anjo caído que voltou do Inferno. Não se sabe como ele fez isso, mas agora ele é perseguido tanto pelo céu como pelo inferno. 
A sucúbo conjurou uma adaga em sua mão direita e golpeou Helaziel. Ele começava a sangrar. 
— Seu sangue é doce  — diz a sucúbo, lambendo a lâmina — serás levado como 
um presente a minha mãe, maldito. Eu, Azeria, Dama da Luxúria serei conclamada o braço direito de minha mãe.
Helaziel então deu um soco no rosto do demônio. Eles começaram a brigar violen-tamente. O ferimento de Helaziel não parava de sangrar. Então ele criou um clarão em suas mãos, um efeito menor de magia e fugiu.   
Voltou até sua casa, onde preparou um ungüento mágico para cicatrizar o ferimento. 
Ele não podia acreditar que uma sucúbo podia ser tão forte. Resolvera relaxar um pouco. 
Subitamente, a janela de sua casa é quebrada. A sucúbo conseguiu localizar onde ele se escondia. Vergava agora uma armadura de combate, que realçava as silhuetas de seu corpo. Usava uma espada negra. 
Eles começaram a lutar. Helaziel estava desarmado. Tomou dois golpes no torso, que o fizeram sangrar muito. Estava subjugado e indefeso, prostrado no chão. Bastaria um golpe para matá-lo de vez. 
Mas Azeria não o fez. 
— Me mate logo — suspirou Helaziel. 
— Não, anjo-demônio. 
— Basta um golpe e terás meu cadáver para levar a sua mestra. Basta que eu esteja MORTO para que sejas recompensada. Não tenho muita valia vivo. 
— Não — disse a sucúbo, tremendo e olhando nos olhos azuis de Helaziel, que es-tavam ainda mais bonitos. 
Helaziel se recuperou e correu em volta da casa. Pegou uma espada que estava sobre a sua mesa. Era uma espada prateada. Ele então acertou um golpe violento na sucúbo. O sangue dela manchou o corpo de Helaziel. 
— Vá embora — disse Helaziel — vá enquanto estou te dando uma chance. Vá em-bora, demônio maldito! 
Ela fugiu, toda ensangüentada. Helaziel pegou parte do sangue dela e guardou num frasco. 
No dia seguinte, pegou esse sangue e misturou com várias ervas e materiais místicos. Criou um pó e pulverizou-o na sua casa, entoando palavras místicas. Teve sorte em ter sobrevivido. Esse pó criou uma barreira mágica que impede a sucúbo achar e entrar na casa de Helaziel de novo. 
Perto de um prédio, uma mulher muito bonita caminhava. Estava um pouco machu-cada, mas andava sem dificuldade. Resolveu entrar no “Blood and Darkness”, primeiro piso. Lá haviam muitas pessoas, vestidas de preto e com maquiagem pesada. Resolveu ficar um pouco por lá. E antes de ir até o terceiro piso, estava escutando a última música daquele 
DJ naquela noite. 

“Illness and plagues, torture and blight 
Is what she brings 
Mocking holy standards, deceiving feeble fools 
Is what she loves 
Granted with powers, gifted with magic 
Watching the world through raven eyes 

Damned woman mischievous whore 
Heretic princess 
Devil's own 

Her seductive elegance 
Excites your weak flesh 
Her diabolical beauty 
Enchants your bewildered mind 

You damn woman 
You mischievous whore 
You heretic princess 
You are Devil's own 

[performing an ecstatic dance:] 
A serenade made out of black magic 
She has learned to set souls afire 
And makes sure that you never 
Will leave it's trance 
Her diabolical beauty 
Enchants your bewildered mind” 

Por: Fabio Melo

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Diários do Caçador - Dia seguinte



A noite não havia acabado e mais uma pessoa havia perdido a vida. A parte mais difícil é ter de aceitar que não poderia ter feito nada.
Ainda pude ver quando os policiais entraram na casa e começaram a vasculhar a residência atrás de mim, eu não podia ficar para ajudar, meu 'trabalho' não é bem visto pela sociedade. Provavelmente constariam que eu era louco e internariam-me em um sanatório. Esperei o tempo certo e recuperei meu carro. Aluguei um quarto de motel e parei para pensar no ocorrido.
A cena demorou muito tempo para sair de minha cabeça - precisei de alguns drinques para acalmar os nervos. - resolvi vasculhar a história da casa para entender o que havia acontecido naquele local.
Fui até a biblioteca e procurei informações sobre os últimos dez anos. Passei o dia pesquisando nos jornais antigos e não deu em nada. Comecei a preocupar-me com o que aconteceria aos próximos moradores do local.
Ah sim, esqueci de informar que os pais da menina colocaram a casa a venda. Provavelmente pela dor da perda.
Quando a biblioteca fechou, resolvi jantar qualquer coisa em uma lanchonete. A televisão mostrava insistentemente o acontecido na casa e a morte do perito. As investigações continuariam no dia seguinte, mas nada do que eles fizessem ia poder ajudar a desvendar aquele caso.
Resolvi dormir e recomeçar minhas pesquisas no dia seguinte, dessa vez procuraria uma forma de acabar com aqueles espíritos e evitar mais mortes desnecessárias. Ou ao menos morreria tentando. - a noite foi ruim, sonhei com a morte do perito.
No dia seguinte fui até um cyber-café e comecei a pesquisar sobre informações que pudessem ajudar a resolver o problema. - claro que não ajudariam muito. Informações de sites especializados não ajudam em nada, verdade. Mas se você tem a experiência adequada e sabe onde procurar as informações, você pode encontrar livros que possam ajudar.
Espíritos malignos são almas que sofreram uma morte violenta ou mesmo se negam de atravessar. O problema era descobrir o que teria acontecido com as crianças, já que a cidade não tinha informações.
Resolvi procurar por pessoas que podiam me contar o que tinha acontecido. – essa é a parte mais difícil. Pessoas não gostam de bisbilhoteiros ainda mais aqueles que perguntam sobre coisas ruins.
Comecei minha busca por informações no hospital, a delegacia estava fora de questão. Recebi diversos foras até que encontrei a área psiquiátrica. Olhei alguns dos prontuários nas portas e constatei que: a maioria dos internados sofria da mesma doença e todos tinham alucinações.
O caso mais recente era o de uma senhora que afirmava ter sido atacada por crianças durante a noite. As questões eram: Como ela havia sobrevivido e onde fora o ataque?
Esperei por um dos médicos e pedi para conversar com ela. Disseram que ela estava sedada e que não poderia responder minhas perguntas essa noite. – eu não tinha mais tempo. – Insisti um pouco e por fim ele disse que eu poderia tentar. Foi o que fiz.
- Senhora Markinson – chamei.
Ela reagiu ao nome, mas ainda estava dormindo.
- Senhora Markinson, pode me ouvir? – tentei novamente.
Ela abriu os olhos.
- Pode me ouvir, senhora?
Ela assentiu.
- O que aconteceu com a senhora?
Ela fez um esforço monumental e fez sinal para que eu me aproximasse.
Quando encostei o ouvido em seus lábios ela sussurrou tudo o que eu precisava:
“Edgar Rage”.
Agradeci e corri para o cyber mais próximo. Digitei o nome na área de busca e descobri tudo o que precisava para entender o que havia acontecido. Uma chacina. Doze crianças foram mortas por um maníaco que não foi pego há seis anos. – essa seria minha próxima caçada. – As informações dizem que a casa era um abrigo para crianças abandonadas que foi fechado após o incidente. Infelizmente os corpos nunca foram encontrados. O maldito deixara um vídeo para que todos pudessem ver os assassinatos. – Bastardo!
Peguei o carro e fui em direção a casa, só havia uma forma de resolver o problema e essa era a parte mais difícil, achar os corpos.
Entrei durante a madrugada, e fui direto até o quarto da garota. Aos poucos senti o ar esfriar provavelmente por causa da manifestação dos espíritos no local. Agora o problema era: Como procurar por corpos sem me tornar um deles.
Lembrei da oração que fiz e passei a fazê-la constantemente para evitar que eles se aproximassem de mim. Dessa forma consegui tempo para procurar.
Eram quinze para as cinco quando consegui terminar de verificar o andar de cima, e ainda tinha todo o andar de baixo. – se eu não conseguisse algo, teria de me conformar com a morte de mais um.
O desespero é parte fundamental nesse serviço. É ele que nos motiva a trabalhar com mais afinco e conseguir resultados que surpreendem. Verifiquei os detalhes que eram necessários na casa e por fim cheguei à oficina.
Tive a idéia de procurar pela planta da casa, assim, talvez, eu pudesse encontrar um lugar que não estava a vista.
Tive sorte. E mais sorte ainda por descobri um porão. Olhei a planta atentamente e notei que o piso era todo cimentado. Os corpos haviam sido enterrados no porão e em seguida o maldito havia coberto o local.
Arrumei uma marreta e comecei a destruir o piso onde eu acreditava ser a entrada.
Foi quando o piso rachou e o alçapão apareceu. No instante que abri fui atingido por algo e fui lançado contra a parede. – por pouco não atingi o armário de ferramentas. Eu não teria sobrevivido.
Havia esquecido da oração.
Assim que voltei a pronunciar as palavras a força deixou que me movesse. Quando abri o porão o cheiro de podridão atingiu-me. Estava há muito tempo fechado.
Eu precisava continuar a proferir as palavras, sendo assim, ignorei o cheiro – o que não foi fácil. – e continuei meu caminho ainda orando.
Os corpos estavam todos ali, ainda expostos e com as roupas. Quase desabei com a cena, eram todas tão pequenas que mal tive coragem de olhar.
Eram quase seis horas. Eu precisaria de sal e algo que pudesse incendiar corri para a cozinha e acabei por sair de frente com os policiais que já estavam na casa.
Assim que eles me deram voz de prisão os dois voaram em direção as paredes, percebi que havia parado de orar com o susto. Assim que retomei a oração eles ficaram confusos e levantei as mãos para que entendessem que eu os salvara. Não funcionou.
Eles vieram em minha direção e acabaram me imobilizaram. Mandaram que eu ficasse quieto, mas eu não podia ou todos nós morreríamos. Fui agredido. – eles deviam estar com raiva de mim. Um dos seus havia sido morto e o principal suspeito era eu.
Tentei avisar, mas fui agredido novamente.
Foi quando eles tiveram a chance que precisavam. Os policiais foram lançados um para cada parede. Eles gritavam de dor. Eu ainda estava tonto e mal conseguia falar. Quando recuperei-me um deles já estava morto. Continuei com a oração e corri para perto do outro. Eu não teria tempo para explicar. Derrubei-o com um chute e tomei suas chaves para me libertar.
Assim que me livrei das algemas agarrei-o pelo casaco e corri em direção à cozinha.
- Pegue sal e algo que possa produzir fogo! – sei que parece estranho o lance do sal, meio lance de filme e coisa supersticiosa. Mas a crença de que o sal purifica é antiga, por isso a história de lançar sal sobre o ombro para deixar os males para trás. O fogo também serve como purificação e passagem direta para o outro mundo, aquele lance de queimar todas as impurezas da alma.
- O que está acontecendo? – perguntou ele.
- Espíritos!
- Você é louco?
Apontei para seu parceiro que estava caído. – sei que isso foi rude, mas ele entendeu que não estava brincando.
Assim que ele juntou as coisas corremos em direção à oficina. Agarrei uma lata de querosene e antes que pudéssemos chegar às escadas as crianças surgiram a nossa frente. Todas ainda marcadas pelos golpes e perfurações de faca que o maldito havia lhes feito.
O policial desesperou-se. Largou as coisas no chão e tentou correr, para seu azar as crianças o pegaram no caminho.  A oração não fazia efeito, o que me deixou confuso. – descobri mais tarde que os espíritos são mais fortes no local onde seu corpo está “enterrado”.
O policial gritava de dor e as crianças pareciam me ignorar. – até hoje não entendi o que aconteceu. – Elas divertiam-se com a agonia do homem, o que me alertou que seria o próximo. Resolvi agir no impulso, peguei o sal e os fósforos que ele trouxera corri na direção das crianças e atirei-me em direção a elas. Era como se elas não estivessem lá. Caí escada abaixo. Desloquei o ombro direito no processo.
Com muito esforço levantei, espalhei sal por todo o local e em seguida o querosene. Rezei pelas almas das crianças e em seguida ateei fogo em tudo. A gritaria no andar de cima era horrível. – talvez de dor, ou mesmo sofrimento por estarem sendo forçadas a abandonar essa existência.
No andar de cima o policial ainda estava vivo, mas seus ferimentos eram sérios. Se não fosse socorrido logo morreria. Eu não deixaria acontecer novamente. Chamei a ambulância e o retirei da casa que em instantes fora tomada pelo incêndio que começara no porão.
Ficamos sentados na rua observando a casa. Ele me olhava incrédulo com o que havia acontecido, enquanto eu pedia a Deus para que as crianças tivessem paz.
A polícia e a ambulância chegaram em menos de cinco minutos, o que me deixou contente. Sabia que ele sobreviveria. Os enfermeiros colocaram meu ombro no lugar e suturaram alguns dos cortes que tinha pelo corpo.
Assim que terminaram os policiais chegaram com uma bateria de perguntas. Menti. E meu novo amigo apoiou-me em todas as informações que dei. Falamos que um homem havia nos atacado, cai no porão enquanto eles lutavam no andar de cima. Ele foi atacado por mais um e acabou sendo nocauteado. Para encobrir as pistas eles tentaram incendiar a casa. – o resto você já sabe.
Na ambulância ele me encarava esperando por respostas.
- Você tem certeza que quer saber? – perguntei.
Ele me encarou por muito tempo enquanto pensava em sua resposta, parecia preocupado com suas crenças e com o impacto que a verdade causaria a sua vida. No entanto, a curiosidade era forte em seus olhos. Ele queria as respostas sobre desaparecimentos, assassinatos, mortes, espancamentos, internações misteriosas, doenças e uma infinidade de coisas que não tinham explicações lógicas e muito menos aceitáveis para a sociedade.
Eu o encarava pensando em como ia responder sua primeira pergunta. Como dizer que tudo o que a vida lhe ensinara a acreditar e não temer era real? Como falar sobre espíritos e sabe lá Deus o que mais existe nesse mundo? E por fim, imaginar como ele reagiria a essa quantidade de informação.
Quando chegamos ao hospital, ele ainda não havia respondido a minha pergunta. Deixei meu número de celular com ele e caminhei em direção a saída.
- É verdade? – perguntou ele enquanto os médicos e enfermeiros o levavam para algum lugar.
Eu apenas o olhei e assenti.

Eu queria dizer mais. Desabafar. Mas trabalhar com isso é uma profissão solitária. E acredite quando digo, eles estão mais seguros assim.


Fecho mais uma vez esse diário com a mesma raiva de quando o abri. - preciso de um drinque.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Profecia Parte 1

As copas das árvores filtravam raios de sol, que se projetavam em feixes no interior da floresta, pintando a atmosfera de mistério. O musgo úmido e macio que envolvia o chão, as pedras e os troncos, brilhava dourado, aceso pela luz tênue do fim de tarde. Um riacho sussurrava manso, serpenteando através da mata, cantando junto com os pássaros, que enchiam o ar de sons. Um pouco além do regato, enormes árvores sagradas formavam um círculo ao redor de uma grande clareira. Carvalhos, azevinhos, teixos, bétula s, freixos, todos plantados pelos primeiros druidas á chegarem nas ilhas. O vento soprava entre as folhas, carregando consigo cheiros e sons, acariciando o rosto dos seis homens que estavam sentados em círculo, no centro da clareira. Eram anciões de barbas e cabelos, longos e brancos. Estavam humildemente vestidos em trajes longos e leves, de cores claras como as nuvens que flutuavam sobre suas cabeças.

Cormac,  o Fiel, havia convocado aquela assembléia, espalhando a notícia para os irmãos da Ordem dos Druidas. Os cinco mestres druidas mais importantes atenderam ao seu chamado, vindos das mais diversas direções das Ilhas.

Todos ali, sabiam que atravessavam uma época crítica, e o fato de o grande Cormac, o Fiel, ter convocado aquele encontro era um prenúncio  de novos tempos. Eles esperavam o sétimo membro, que á exceção de Cormac, todos desconheciam. No entanto, seu severo treinamento os havia ensinado á ser pacientes e a controlar suas expectativas.

O silêncio dos grão-mestres unia -se ao que vinha da flores ta. Logo, como verdadeiros Conhecedores do Carvalho, ouviram o barulho de passos  sobre as folhas trazido pela brisa. O sétimo membro muito ansiado estava chagando.

Cormac sorriu enigmático para os cinco companheiros que no centro do círculo esperavam ansiosos. Sem entender, eles olharam na direção do homem alto que se aproximava. Ele era jovem, e a julgar pelas suas roupas e pelo seu olhar era um sacerdote da nova religião que agora se alastrava pelas Ilhas como o fogo em
palha.

Os druidas se viraram para Cormac, como a buscar em seus olhos uma resposta para tal heresia. Aqueles templos naturais eram reservados aos iniciados da  Ordem, e a ninguém mais. Por quê Cormac teria trazido um sacerdote cristão a um dos bosques sagrados?

O  Monge Columba, trazia em suas mãos a resposta  para aquelas dúvidas. Aproximou-se timidamente, medindo cada passo, ciente de que entrava num círculo de poder ancestral. Tinha consciência porém, de sua importância naquela reunião. E mais ainda de quanto aquele encontro representaria para a nova realidade das coisas. Sabia que trazia a “Inimiga do Grande Mal”. Não um mal de agora, mas o eterno mal
que desde sempre vinha sendo profetizado.

O sacerdote aproximou-se respeitosamente do centro do círculo, aonde os outros se encontravam. Mesmo sem nunca ter participado de um ritual druídico, algo dentro dele guiava os seus passos. Sentou-se junto dos outros anciões. Ele sabia que aquele era o seu lugar, pois trazia a novidade. O vento soprou por sobre a sua cabeça,  confirmando o que Columba intuíra. Os druidas também ouviram o que o vento dizia. Já tinham o sinal, não restavam mais dúvidas.

De repente, toda a floresta emudeceu para escutar o que eles tinham a dizer. O últimos raios de sol fugiam, abrindo lugar para  a escuridão que se seguiria. Cormac,  o Fiel, lançou um olhar divertido a seus irmãos de Ordem, como um menino á rir de alguma travessura. Mas quando o sol finalmente desapareceu, seu
olhar alegre calou-se, como se tivesse visto um Mal pairar sobre seu ser. A compaixão que sentia pelos outros druidas deu lugar a um sentimento obscuro que turvou o seu coração. Austero, ele suspirou.

“Novamente, tive uma visão do Mal. Ele perturbou meus sonhos, causando-me muito terror por meio do Olho-Que-Tudo -Vê. Vi ondas de  cobiça, luxúria e desejo corromperem a alma dos homens, cegando-os, impedindo-os de perceber a beleza das estrelas; vi rios de enxofre carregando toda a sorte de bestas assassinas; explosões de fogo lavrando a terra, semeando cadáveres aos montes; vi a derrubada dos bosques sagrados, o sacrifício das matas, o desprezo pelo poder dos animais; vi os mitos serem esmagados e tamb ém o nascimento de falsos heróis; e vi a mentira ser aceita como verdade, e  a verdade, encarada como mentira.”

Aquelas palavras de rancor e ódio, encheram  a alma dos Druidas de dor e espanto. Aquelas palavras apavoraram e destruíram as esperanças dos velhos Anciões.
-  Mas quando isso ocorrerá, Cormac? – indagou Lir, das palavras sábias.
-  O  Mal  já  está  entre  nós.  Sua  raiz  por  enquanto,  espalha-se tenra e inofensiva como um broto, mas o tempo o fará forte. Tão forte que sequer nosso rico conhecimento poderá detê-lo.
-  É por isso que sinto nosso poder enfraquecer ... – comentou Mider, o Pilar da Terra .

-  Sim.  – respondeu Cormac cheio de assombro, envolvido numa cortina de  mistério  – Não temos forças para combater esse Mal. Mas ainda há um raio  de esperança. Nas minhas visões, havia uma espada, a materialização da Aliança, poderosa o suficiente para deter O Mal. Ela reluzia no centro de um círculo de pedras, apoiada numa cruz.  Do seu gume, raios de luz brilhavam formando um grande halo, que se expandia por todo o círculo. Tinha sido forjada com o ferro do sacrifício do Filho do Homem. Em seu punho, uma pedra, uma lasca de mármore verde, guardava o sagrado. Ela emanava poder.
- Onde está essa espada? – questionou Creidhne, o Senhor do Vento.

Cormac deixou que o silêncio os envolvesse novamente, para que refletissem. Seus olhos percorreram vagarosamente as mãos de cada um daqueles homens, que acompanharam essa trajetória buscando a exposta. Então, magicamente, eles perceberam que cada um deles trazia um elemento de poder.

As calejadas mãos de Mider,  o Pilar da Terra , apertavam uma barra de ferro cavada das entranhas da terra, contendo em si só, o poder do solo. Lir,  das Palavras Sábias, trazia uma bolsa de couro com a água retirada de uma fonte sagrada. Finn, do Fogo Sagrado, entendeu porque era um dos escolhidos, e reidhne, o Senhor do Vento, já sabia o que fazer. Fergus,  o Senhor da Aurora, dando-se conta do que Cormac dizia com os olhos,  ergueu o altar iluminado, onde aconteceria a transformação; nele, os  metais  seriam derretidos para forjar A Espada.

Todos olharam repentinamente para Columba. Se todos os elementos da arma já estavam ali reunidos, o que justificaria a presença dele? Por quê um Sacerdote Cristão estaria fazendo ali? Calmamente Columba abriu as mãos. Embora a escuridão paira -se sobre todos, os primeiros raios das Estrelas e da Lua, brilharam sobre aquele pedaço de metal, revelando a força que completaria o poder da espada.

Cormac,  levantou-se da relva, seguido dos outros. O brilho prateado da Lua banhava as suas vestes brancas, tingindo-os com linhas de prata. O vento trouxe para o centro do círculo o frio da noite que se estabelecia. As Estrelas já apontavam no horizonte, espiando de longe, o ritual que se iniciava.

O Fiel, posicionou-se ao norte do círculo, em pé, de frente para os outros. Seus olhos austeros refletiram as primeiras faíscas que Finn,  do Fogo Sagrado, riscava para evocar o elemento da transformação. O fogo logo tomou forma e foi respeitosamente saudado pelo s Druidas. Columba, O monge, com um misto de espanto e respeito, observava tudo atentamente, medindo cada movimento. Invadido por estranhas ensações, viu Fergus,  o Senhor da Aurora,  colocar o altar sobre as chamas místicas, enquanto recitava um antigo encantamento, e  depois voltar á sua posição.

Mider,  o Pilar da Terra, dirigiu-se ao altar, depositando nele a barra de ferro que trazia. O metal parecia obedecer á magia que ele evocava, e avermelhou-se, derretendo aos poucos. O ritual seguia o seu rumo lentamente. O ferro rendia-se á força transformadora do fogo, flexibilizando-se até finalmente tornar-se líquido, pronto para misturar-se com o poder.

Enquanto  o ferro borbulhava sobre a Mesa Sagrada, a clareira, estava totalmente iluminada pela chama emanada pelo altar iluminado, e pela luz vingadora das chamas avermelhadas. Como se tivesse sido chamado pelo ferro derretido, borbulhando, Columba se aproximou. Sem que ninguém dissesse palavra alguma, O monge aproximou-se do altar e erguendo o cravo sagrado aos céus,  evocou a força divina. Lentamente, ele deixou-o cair sobre o metal que ardia naquele altar de transformação. Enquanto o cravo girava no ar, visões desfilavam na mente do sacerdote, num turbilhão de imagens. Viu a cruz e Cristo coroado de espinhos, sendo pregado à cruz com os três cravos sagrados. Espetado na carne de Cristo, cada cravo foi permeado de um poder distinto. E um deles, mergulhava agora naquele caldeirão fervente, impregnando com sua força o metal ao qual se fundia.

Lir,  das Palavras Sábias,  caminhou vagarosamente para o oeste, na direção do altar. Um movimento quase imperceptível, mas suficiente para atrair a atenção de Columba, fez com que este voltasse ao seu lugar. O Druida dirigiu-se a uma grande pedra especialmente plana, situada a uma pequena distância do círculo, enquanto recitava palavras  em uma língua mística que Columba não pôde compreender. Derramou então a água que carregava em sua bolsa sobre a pedra, como a abençoá-la. Depositou o resto num buraco que avia sido cavado na pedra para evocar o poder daquele elemento.

O brilho da água sendo derramada fez Columba  ter  novas visões de Cristo. Viu o rosto do Filho do Homem pontilhado de suor que brotava de seu sofrimento. A água, escorrendo por todo o seu corpo, era a força da geração, de onde vem toda a vida. A água da cura, da purificação, a água que a todos traz renovação de corpo e alma.

Ao voltar para a sua posição no círculo, Lir sorriu com cumplicidade para Columba, como a ler os seus pensamentos puros.

Seguindo a sincronia daquele ritual milenar, algo que ha via há muitas eras se estabelecido no coração daqueles homens, Creidhne, o Senhor dos Ventos, tomou seu lugar na celebração. Juntou-se a Fergus,  o Senhor da Aurora,  no centro do círculo e, obedecendo ao movimento das Estrelas, às quais se alinharam, os dois se dirigiram á pedra-forja, cada qual segurando um lado do altar.

A cada passo dado, os dois entoavam c ânticos sagrados, interrompendo o silêncio noturno. Aqueles sons tocaram Columba, que foi envolvido pela grandiosidade do ato. Conduzido pela música, fechou os olhos para aproveitar melhor o momento. Quando os abriu, Fergus e Creid hne começavam a derramar o conteúdo do altar sobre o vazio do ar. E por incrível que pareça, o metal fundido, ainda borbulhando tomava forma lentamente. Seu calor tocado pelo frio do vento, lhe dava forma, rendendo-se à nova condição. E assim se fez Espada.

A força do momento enfeitiçou Columba, que caiu ajoelhado, com as mãos erguidas para o c éus. O fogo brilhava naquele círculo de pedra sagrado. Aquele fogo transformou-se no sangue de Cristo que escorria as
feridas rasgadas pelos cravos que O prendiam á cruz do seu próprio sacrifício.

A música do vento de Creidhne sobre o gume da espada trazia para Columba os gritos de dor e sofrimento dos que acompanharam o Filho do Homem no seu holocausto, naquele fim de tarde de crucificação. O grito da lâmina virgem mergulhando na  água invadiu a vis ão de Columba. Ele viu no líquido  que agora envolvia a espada, as lágrimas do lamento das mulheres que choravam com a agonia do Redentor. Aquelas mesmas lágrimas também brotavam de seu coração, lentamente alcançando os seus olhos, afogando na garganta, a sua compaixão. Na cruz que agora Creidhne formava, encaixando a lâmina no punho trazido por Cormac, Columba viu a cruz do Salvador.

A Lua em seu auge, espiava por sobre as nuvens, o nascimento daquele instrumento de poder misturando os seus raios  á prata da lâmina que Creidhne agora erguia aos céus, consagrando-a  como o elo de união as forças da Terra e do Céu. “És Narsil, o Vento do Bem, Aquela que Traz a Força”.

A espada luziu nas mãos do Druida, que agora ficou ciente de sua missão. A luz da lua ficou mais intensa, como para revelar o leão moldado no cabo da arma. O animal, desconhecido para Cormac, que por anos o tinha acompanhado em vis ões proféticas, era para Columba a verdadeira revelação. A fera que representava a força, e que pousava a sua pata sobre a cruz da espada, era o próprio Cristo, o Leão de Judá.

Foi naquele metal reluzente que pairou as esperanças de cada um dos presentes , os quais  realizaram o ritual. Nele repousava a esperança de vit ória sobre o Grande Mal, que agora ameaçava a Terra. Então, ao final deste ritual, o monge Columba, foi consumido pela vis ão que incendiava a sua mente. Viu Cristo soltar-se da cruz retirando suavemente os três cravos que o prendiam àquele altar de sacrifício e caminhar em sua direção.  Columba viu Seus olhos contarem sobre as dores da humanidade, a redenção do sacrifício que não estava apenas na Sua ressurreiç ão, como tamb ém a libertação de todos os justos que aguardavam desde o início dos tempos. O monge viu Ele arrebentando  as portas da morte, obrigando-a a devolver aqueles que ela havia engolido. Neles residia a semente da eterna salvação, o remédio para a cura dos males da humanidade para todo o sempre: Justiça, Força e Sabedoria.  Os olhos de Cristo revelaram a

Força que libertaria o mundo do Mal, a Sabedoria que guiaria os homens nesta batalha e a Justiça que restauraria o equilíbrio da Terra devastada.

Cristo entregou o cravo da Força a uma mão que surgiu da escurid ão. Esta o passou para outra mão, que
tomou o cravo e o entregou a um terceiro. Esse ato de partilha seguiu at é a mão que Columba agora estendia. Houve então uma revoada de anjos no c éu. Afinal, Seu sacrifício não havia sido em vão.

E agora o Cravo da Força, fundido á espada banhada de lua que Creidhne mantinha erguida, buscava a mão que a levaria para cumprir sua missão.

O sereno que caía suavemente envolvia Narsil, revelando na sua lâmina o nome do guerreiro que a conduziria ao seu destino. As brasas que ardiam no centro do círculo de pedras iluminaram na espada a palavra em gaélico, escrita com pequenas gotículas de orvalho: Arthur, “O Enviado”. Tomando a espada em punho, Columba, O monge, a ergueu e disse:
- “Que somente ao guerreiro que tra z Justiça no coração, Sabedoria na mente e Força na alma se destine esta Espada Sagrada.”

Erguendo-a ainda mais, soltou a arma de quase 2m. A espada seguiu uma trajetória completamente diferente, e fixou-se no centro do c írculo de pedras aonde o ritual hav ia sido realizado.
- “Que assim seja! O Herdeiro virá, mas O Salvador será o terceiro – disse Cormac, o Fiel.”

Narsil cheia de força, se encontrava cravada ali agora, somente á espera daquele que lhe fora destinado. Porém, todos sabiam que o guerreiro que tomasse a espada, teria que procurar os o utros dois cravos do sacrifício: o da Justiça e o da Sabedoria, para que pudesse usar A Espada.

Por: Rafael Menestrel

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A Fuga - Parte 1

Os primeiros pingos de chuva acordaram-me, ainda estava caído no mesmo lugar. Era como um pesadelo constante, a fadiga me derrubara noite passada, mas eu sabia que eles ainda estavam atrás de mim.

Dois dias atrás:

Prisão de segurança máxima.

O dia começara de forma agradável, ia ser transferido para Death Valley – nome interessante não acham? – Depois de passar seis anos em Arkran, decidiram que meu sofrimento ainda não era o bastante.
Era hora do ‘banho de sol’ quando recebi a notícia. Um dos guardas se aproximou e disse que tinha uma surpresa. Acertou-me com o cassetete e pronunciou as seguintes palavras:
- Hoje é seu dia de sorte, vai ganhar festa de despedida. – o que significava que os outros guardas iam fazer o mesmo que ele. Bater.
Levantei-me e olhei em volta, na tentativa de entender o que estava acontecendo. Os outros me encaravam de forma estranha, como se fosse um dos piores aqui. Procurei por Krank – rato de cadeia. – para conseguir informações, mas nem ele teve coragem para falar comigo. Pareciam assustados, mas a questão era “Por quê?”
Seis guardas se posicionaram na saída do pátio ao termino do horário. Observei-os por alguns momentos e vi que a atenção deles era minha. Caminhei em direção a eles sabendo o que iria acontecer.
Quando acordei, estava pendurado por uma corrente no meio de uma sala escura. Os guardas estavam posicionados ao meu redor e o Diretor Barnes ao centro. Estavam todos sorrindo. Podia ouvir o som dos grilos do lado de fora, o silêncio dos presos era aterrorizante. Sempre que alguém era torturado. Faziam isso para marcar quanto tempo o infeliz durava.
- Acordou? – disse o diretor se aproximando. – estamos aqui para nos despedir de você.
- Parece feliz com minha partida... – respondi.
- Mais do que imagina, 4100 – eles nunca pronunciavam meu nome.
A surra durou cerca de três horas. Sentia meu corpo completamente quebrado, mas enquanto eles recuperavam o fôlego eu também tinha esse tempo.
Acordei algemado em um comboio. Pela janela podia ver que que estava escurecendo, devo ter apagado por cerca de oito a dez horas. Os policiais que conduziam estavam conversando sobre a luta do dia anterior o que me vigiava comentava algo a respeito vez ou outra. Pareciam saber que não daria trabalho para eles. - não depois da surra.
O interessante era que meu corpo não parecia tão afetado, eu podia me mexer. Preferi manter-me na posição que estava, para não dar motivos para continuarem o que os outros deixaram mal feito.
- Você ainda está dormindo? - perguntou o que me vigiava.
Não respondi.
Ele me chutou para ter certeza que estava desacordado. Foi quando agarrei sua perna e o derrubei. Eles deviam acreditar que eu estava mal, por isso não me prenderam como deviam. - imbecis. - Sufoquei-o com a corrente, mas esqueci de imobilizar as pernas. Que ele usou para alertar os companheiros chutando a a janela de comunicação. - aquelas que tem a grade. - e no mesmo instante o carro parou.
Preparei-me para o pior. Sabia que quando eles vissem o colega morto iam atirar sem aviso. Carreguei o guarda apagado e o posicionei em frente a porta para que pudesse empurrá-lo contra os outros.
Eles abriram a porta e foi o que fiz, eles foram ao chão. Pulei em cima do primeiro que tentou sacar a arma e o apaguei usando as algemas - cara aquilo doeu muito. - chutei a arma do outro para longe e comecei a correr. Já era noite.
Ainda assim, as coisas pioraram.
Senti algo quente nas costas e cai. Me acertaram. Juntei forças para poder manter a consciência, levantar e seguir caminho. Então ouvi o primeiro grito. Virei-me para trás e vi algo em cima de um dos guardas, era do tamanho de uma pessoa, mas a pele era branca. Os olhos vermelhos me fitaram por uma fração de segundos e naquele instante entendi que devia continuar correndo.
Ouvi mais tiros e outro grito. Era o segundo. Corri o mais rápido que eu pude eté chegar a um rio. Lancei-me nele e segui a corrente. - tática de sobrevivência. - Nadei até a margem muitos metros depois e logo em seguida parei para descansar.
Aquela foi a primeira vez que realmente senti medo.
Lembrei que precisava de um médico o mais rápido possível, já que havia sido atingido. Levantei com um esforço absurdo e continuei a caminhar. Tentei não pensar no que havia visto e concentrei-me em encontrar algo para comer.
Havia algumas ervas e frutas locais que podiam ser colhidas, mas não tive muito tempo para saborear nada, ouvi algo pular no rio, o que fez meu coração disparar. Engoli o que tinha colhido e voltei a correr.
Corri as margens do rio usando a vegetação próxima como cobertura, seja o que fosse, estava atrás de mim. E eu nem queria imaginar o que havia acontecido com os policiais. Após algum tempo resolvi entrar no rio e deixar que a correnteza me guiasse para poupar forças. Por sorte não haviam piranhas ali ou o sangue que meu ferimento insistia em jorrar já teria me entregue a elas.
Não sei quanto tempo passei na água, mas quando sai estava quase congelando e o dia estava raiando. Procurei ingredientes para uma fogueira e em seguida dormi.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Diário do Caçador


Era mais uma das noites que tanto menosprezo nesse mundo. Após os acontecimentos do ultimo ano venho anotando meus problemas nesses diários.
Ainda estava no motel quando a notícia saiu. “Jovem encontrada morta dentro de casa”, o que parecia normal para um bairro como o que ela morava. Infelizmente descobri que as coisas não são normais há muito tempo, por isso resolvi verificar.
Arrumei minhas coisas e saí sem que o atendente me avistasse. Em uma loja de conveniência, comprei o jornal do dia e li a respeito do acontecido.
15 anos, bonita, tinha poucos amigos e começara a ter problemas com os pais. Influência ruim: Verdade. Mas de quem? Resolvi investigar.
Dirigi até o local.
Os vidros do carro embaçaram quando estacionei, algo muito ruim acontecera ali. Saí do carro portando a identificação de federal e aproximei-me dos peritos que pareciam terminar seu trabalho.
- Boa noite – disse ele olhando para mim desconfiado.
- Gostaria de fazer algumas perguntas – disse enquanto mostrava minha identificação falsa.
- No que posso ajudar?
- O que aconteceu? – perguntei olhando para a casa.
- A garota parece ter consumido algo que lhe fez muito mal, foi a informação do legista. A casa está limpa, encontramos alguns livros de oculto, mas nada de mais. Ela era gótica, com certeza.
Claro, claro. Agradeci suas informações e caminhei em direção a casa. Ele me acompanhou para dar detalhes dos locais onde haviam examinado provas. Entramos devagar e ele estendeu o braço apontando para o quarto. Caminhei em direção a sala e procurei pelas fotos de família.
Procurei pela garota, queria saber quais eram as mudanças em sua vida. O quanto ela havia mudado.
- Porque está olhando as fotos? – perguntou o perito.
- Elas dizem mais do que imagina – respondi. – A garota tinha uma vida e preciso saber sobre sua vida para saber o que aconteceu de verdade.
Ele estranhou, mas não disse nada.
As fotos eram de uma garota alegre, saudável e até então muito simpática com a família. O que levaria a essa mudança? Caminhei em direção a seu quarto com o perito ao meu lado, ele parecia curioso com o tipo de investigação que eu conduzia. Caminhamos ao quarto e com as luvas, que ele me emprestara, passei a procurar por mais informações sobre ela. Achei seus livros de estudo vi que as datas haviam parado no dia dezessete do mês passado. Olhei as fotos que ela tinha em seu quarto, algumas ainda continham alegria, as outras tornaram-se obscuras e muito tristes.
Fui até seu computador e o liguei. A senha já havia sido descoberta pelos  técnicos e acessei a ultima pagina da internet. Nenhum jovem de hoje se preocupa em apagar históricos. Era um site de espiritismo, o que piorava ainda mais minhas suspeitas. Os livros em cima da escrivaninha confirmaram tudo.
Livros de feitiços não deviam estar com uma garota, principalmente para serem usados com a finalidade de ganhar prestígio em meio aos amigos.
Foi quando começou.
A cadeira do quarto voou em minha direção e se não fosse pelo perito ela teria arrebentado comigo. Ele puxou a arma instintivamente e a porta fechou-se em resposta. Ele olhou para mim assustado, não sabia o que fazer. O ar esfriou bruscamente dentro do quarto, – era possível ver nossa respiração. – era um espírito e provavelmente muito irritado.
- Tenha cuidado com os móveis – avisei.
Ele olhou para mim com a mesma cara de duvida.
- Apenas tome cuidado – repeti o alerta.
Ele assentiu e preparou-se para o provável próximo ataque. Alguns livros começaram a ser lançados contra nós e ele começou a atirar em resposta. Tentei avisar para ele não fazer, mas antes que eu pudesse abrir a boca uma cadeira se chocou contra ele.
Corri para ajudar, mas algo me arremessou contra a parede. O choque foi tão grande que quase perdi os sentidos. O perito acordou e antes que pudesse se erguer foi arrastado para o centro do quarto. O medo em seu rosto alertou-me do que ia acontecer.
- Me ajuda – gritou ele esperando que eu pudesse fazer algo.
As luzes do quarto apagaram e pude ver, no espelho, o que estava arrastando ele. Eram crianças, muitas. Elas tinham cortes pelo corpo, corriam de um lado para outro com sorrisos diabólicos. Três delas haviam agarrado sua perna.
O que fazer? Era a pergunta que me passava em mente para ajudar o pobre coitado que era a vítima da vez. Eu estava preso, provavelmente por outros espíritos e os gritos não deixavam que me concentrasse.
Ele foi erguido no ar e começou a sangrar. O sangue jorrava por sua boca aos montes, o que me deixou em pânico. Aquilo fora o que aconteceu com a garota, e também aconteceria comigo se não pensasse em algo rápido. Procurei me concentrar no que poderia repelir espíritos e como fazer para alcançar qualquer coisa que estivesse ao meu alcance.
Recordei das Igrejas Evangélicas que retiravam espíritos de seus fiéis por meio de correntes de orações e resolvi usar de meu latin para dar poder às palavras que pronunciaria.
- Mali spiritus in tempore finito neque.Release hoc servus Dei discedere ex eo loco. Ea mea dicta per Christum lucrari et traction expellere se malum facere.
Assim que terminei de pronunciar as palavras o homem caiu. Assim que seu corpo tocou o chão, senti que não havia mais vida ali. E assim entendi o que havia acontecido com a garota. Tentei reanimar o homem algumas vezes, mesmo sabendo que seria em vão. No fim, sai pelos fundos sem ser notado.
A casa fora desabitada com os acontecimentos que se sucederam nos dias seguintes, mas por hoje estou cansado. Escreverei sobre isso outro dia.

Igual a todas as Noites

- Essa é uma noite como todas as outras.
Eu fiquei surpreso por ouvi-lo dizer essas palavras, afinal, como poderia alguém achar aquela noite tão comum como às demais? Na noite anterior, por exemplo, eu estava com minha esposa passeando pelo centro da cidade e observando os belos enfeites de natal, isso sim soaria normal para mim.  Agora, estar de tocaia no alto de um arranha-céu no centro de São Paulo justo na noite de natal, isso, sinceramente, nunca seria normal. Não resistindo ao seu comentário retruquei-o:
- Porque você diz isso?
- Jovem.  O dia que você compreender o real sentido dessa afirmação, estará abrindo os olhos pela primeira vez.
Essa metáfora era tudo o que faltava para a minha noite ser corrompida de uma vez por todas. - Ele deve ter a minha idade e só por estar no comando já se sente no direito de me chamar de “jovem” - esse foi o primeiro pensamento que veio a minha cabeça naquele instante e quando estava para responder a altura, um vento gelado correu pelo meu corpo e pude notar o como a minha situação já estava desagradável, a piorar seria muita estupidez. Optei por mudar de assunto:
- Afinal de contas, o que estamos esperando?
- Más companhias.
Era obvio que esperávamos más companhias, por que outra razão eu seria acordado às quatro horas da manhã e estaria armado ate os dentes junto à tropa de elite do batalhão anti-seqüestro? Essa resposta quase me fez arremessá-lo do alto daquele enorme prédio. Felizmente a minha razão voltou antes de mover um único dedo.  Foi então que prestei atenção pela primeira vez naquele homem, parado justamente na beirada do prédio, tendo metade do seu pé para fora do mesmo. Ao me dar conta disso sentiu um incomodo frio na espinha, ainda porque o infeliz mantinha uma delirante calma, me levando à loucura. Mais alguns instantes observando aquela cena arrepiante e eu o teria empurrado com as minhas próprias mãos, só para me livrar da aflição que sentia, mas foi então que ele voltou a falar, como se estivesse retornando de uma meditação que perdurara por muitos dias:
- Eles chegaram.
Esgueirando-me cuidadosamente pude notar um grupo de jovens que caminhava rapidamente pela avenida principal. Eu poderia esperar qualquer coisa, mas um grupo de jovens? Senti-me ridicularizado ao pensar que teria movido um dos melhores batalhões da policia somente para enfrentar tais inofensivos indivíduos, porém aquela noite já havia desgastado todas as minhas forças e não tive se quer vontade para discutir e me submeti ao estranho homem, evitando complicações:
- O que faremos?
Chame a atenção deles, mande o seu melhor atirador acertar aquele de branco.
Apesar de lidar com a morte todos os dias, essa não era bem uma coisa agradável. Agora eu deveria escolher o maldito infeliz que seria o carrasco a matar o aparentemente inocente jovem que caminha junto aos seus amigos. Missão terrível essa. Todos os soldados me olhavam com ar de obediência e submissão para o qual haviam sido treinados, mas no fundo eu sabia que todos pediam para não serem escolhidos. Tudo não passou de alguns míseros instantes, que representaram uma das piores decisões de toda a minha vida. Por fim escolhi o “Silva”, ele era o melhor de todos.
O soldado respondeu prontamente e apontou o seu fuzil contra o alvo, um alvo tão fácil de atingir que a covardia o fez hesitar por alguns instantes, coisa que pude notar, mas não reprimi em respeito ao pobre homem que provavelmente não dormiria essa noite. De certa forma esse meu raciocínio não estava completamente errado, ele realmente não dormiu naquela noite, alias, nunca mais. Por quê? Bom, deixe-me continuar com a história.
Após aqueles terríveis instantes de silencio e atenção penetrante de todos, o disparo foi dado, tendo o seu som quase totalmente anulado graças ao silenciador que completava o cano. Observando atentamente eu sabia que errar aquele alvo seria tão estúpido quanto não conseguir colocar a tampa na caneta, porém, por mais que eu estudasse secamente o jovem que estava lá embaixo, ele não caia, apenas interrompeu o seu caminhar despreocupado, sendo seguido pelos seus companheiros. Eu já estava praticamente ordenando o próximo disparo quando aquele homem estranho interveio:
- Não desperdice mais as suas balas, elas serão necessárias em breve.  O seu soldado atingiu perfeitamente o alvo, o que chamou a sua atenção, sendo esse o nosso objetivo. Prepare seus homens para um confronto direto.
Agora o Federal estava abusando da minha boa vontade. Como poderia ele afirmar que o tiro havia atingido o alvo e que lhe havia chamado à atenção? É como se um tiro de fuzil fosse tão inofensivo como uma mamona atirada com um estilingue. Esse pensamento acompanhou o meu crescente ódio com relação aquele cretino, porém eu ainda avistava os jovens e pude ver todos eles nos observando de baixo.
Por mais distante que nós estivéssemos e por mais limitada que seja a minha visão, seria impossível não ver aquele rosto tão macabro e assustador que nos encarava sem expressão a muitos metros abaixo de mim.  Apesar dessa visão terrível dos jovens, a distancia garantia a todos, uma sensação de segurança que nos permitia continuar a observá-los, porém essa sensação era completamente falsa. Em uma questão de instantes todas as maiores crenças que conduziram a minha vida ate aquele momento foram jogadas contra a parede e pude presenciar coisas as quais eu jamais poderia imaginar, nem mesmo em meu pior pesadelo.
A gravidade parecia não fazer nenhum efeito contra aquelas criaturas, digo criaturas porque ate hoje não sei ao certo o que eram.  Lembro-me com perfeição do movimento impossível ate mesmo para um atleta olímpico que os seres realizaram.  Saltando provavelmente uns dez metros antes de começarem a correr pelas paredes daquele enorme prédio vindo em nossa direção. Sim, eu disse correr pelas paredes, e estou certo do que vi. O Federal ordenou que todos abrissem fogo contra as criaturas, e assim o fizeram tão logo se recuperaram do choque.  Apesar de todos os nossos tiros, somente uma das criaturas foi derrubada e, instantes depois, todas as suas companheiras já dividiam aquele grande platô que agora parecia ser tão pequeno para nós, principalmente por considerar que queríamos fugir, mas não tínhamos para onde.
Metade do batalhão foi exterminado somente no instante em que as criaturas atingiram o topo do prédio, os demais atiraram sem trégua para todos os lados, porem as criaturas era velozes a um extremo que nos impedia de agir com eficácia. Por outro lado o Federal parecia aceitar toda aquela situação com a mesma calma de uma criança ingênua que coloca a mão no fogo sem temê-lo, disparando muito menos que qualquer um de nós, mas, por incrível que possa parecer, acertando muito mais.
Sou obrigado a assumir que aquela situação estava além do que minha mente poderia suportar, acabando por entrar em pânico. Eu não podia mais disparar um único tiro se quer, mesmo com o pente praticamente cheio, da mesma forma que não podia mais ficar de pé, mesmo em perfeito estado de saúde, porém ainda podia observar tudo o que acontecia a minha volta, apesar de somente conseguir associar todos aqueles sons e imagens algum tempo depois.
Resumindo, a chacina acabou sacrificando todos os meus homens, exceto um que, no auge do desespero, cuidou de se atirar do alto do prédio tendo uma morte ao menos mais interessante. Quanto às criaturas, ao que tudo indicava, todas haviam morrido. Algumas poucas pelos tiros dos soldados, mas, sem duvidas, a maioria havia sido friamente assassinada pelo Federal.  Falando nele, o mesmo estava parado alguns metros a minha frente, não aparentava ter se quer se arranhado, apesar de estar todo suado e bufando como um cão. Tudo parecia ter finalmente acabado, mas pela sua expressão eu entendi que ainda havia algum assunto inacabado. O mesmo resmungou:
- Falta um. Não o encontro. Odeio isso!
Mal terminara de falar e fora atingido pelas costas pelo que parecia ser a ultima das criaturas. O mais incrível dessa situação era o fato de o ser tê-lo atravessado o corpo usando apenas um cabo de vassoura. Perplexo o Federal caia de joelhos sobre o chão, de frente para mim; só teve tempo de sussurrar algumas palavras e cair, agora como um corpo sem vida.
A criatura respirava fundo, provavelmente aquele combate também exigira um grande esforço de sua parte.  De uma forma inexplicável o meu pânico havia fugido. Provavelmente observar uma cena tão impressionante como aquela me levara a esquecer de tudo, ate mesmo do medo da morte. Foi apenas uma questão de instantes, porém, para que todo o horror voltasse e agora muito mais forte e terrível do que antes. A criatura me observava.
Enquanto me encarava misteriosamente ela caminhou ate os meus pés. Eu tentava instintivamente prever os seus movimentos, a ponto de um simples levantar de braços da mesma ser o suficiente para que todo o meu corpo se contraísse buscando proteção. Quando abri os olhos novamente notei que ela não estava mais lá. Acredito que toda essa covardia ao final das contas havia me salvado. Provavelmente a criatura teve pena da minha pessoa, ou simplesmente não teve vontade de matar-me. Como poderei saber?   A felicidade que tomou o meu corpo foi tanta que cai em choro, um choro soluçante que se manteve ate mesmo quando as equipes de resgate chegaram. Apesar de toda essa situação horrivelmente trágica e aterrorizante, a coisa que mais mexeu e continua mexendo comigo ate hoje foram os últimos sussurros do pobre Federal:
- Essa é uma noite como todas as outras.


Por: Victor Allenspach de Souza