quinta-feira, 1 de março de 2012

Lágrimas do Céu – Parte I


O vento soprava forte nas montanhas naquele fim de tarde.  Ao longe se podia ver um menino, sentado diante de um grande penhasco. Aparentava ter seus sete anos. O corpo nu reluzia os poucos raios de luz que ainda espalhavam-se pela ilha. Os olhos perdiam-se no horizonte, como se estivessem em busca de algo.
Depois de um alto e prolongado suspiro, Demétrius levanta-se e vai de encontro aos outros. O pôr-do-sol se aproxima, é hora de recolher-se. O elfo celeste, apesar de pequeno, era muito responsável. Sábio, desde que aprendera a falar dava conselhos a seus futuros súditos.
Com a chegada da noite, a mãe sempre acolhedora, acomoda o rosto de Demétrius sobre seu colo, enquanto lhe acaricia as faces. Nunca sentira pele tão macia em toda a sua vida. O rosto pálido de seu filho e os cabelos loiros que serpenteavam entre os ombros, faziam dele, algo sobrenatural... Algo divino! Se não bastasse isso, ele ainda tinha aquela marca. A Marca da Realeza, que lhe dava o poder sobre a tribo, após a morte de Arthur, o atual rei.  Arthur era um homem velho, com cabelos e barba brancos, olhos claros, mas apesar da aparência frágil, mantinha oculto dentro de si um poder imenso, incalculável.
Apesar de tanto poder e sabedoria, adquiridos com o passar das gerações, Arthur sabia que sua Era havia se esvaído e que com a chegada do novo escolhido para o trono, deveria seguir seu triste destino: a morte.
Os elfo celestes têm tradições muito peculiares. Uma delas, que pode parecer estranha e até mesmo macabra para outros povos, é a que trata do fim de uma Era.  Quando  nasce  um  celeste  com  a  marca  da  realeza,  o  atual  rei  deve  ensinar-lhe  tudo  o  que  sabe  e  depois disso matar-se.
Apesar  de  a  tradição  sempre  reinar  entre  os  celestes,  Demétrius  não  conseguia  conformar-se  com  a  futura  morte  de  seu  mestre. Com o passar do tempo, Arthur tornou-se uma constante em sua vida, alguém que ele respeitava, e com o tempo aprendeu a amar.
*****
 A noite chegara novamente.  Na  manhã  seguinte  Demétrius  receberia  a  coroa  e  Arthur  seguiria  seu  destino.  Os  pesadelos atormentaram o sono de Demétrius. Sua mãe passou a noite inteira diante do filho, exausta.
Demétrius  achava  tudo  o  que  estava  acontecendo  algo  terrível,  sujo,  indigno!  Como  aquele  povo  poderia  deixar  o  homem,  que durante séculos dedicou sua vida a eles, ir para a morte sem ao menos tentar alguma coisa? Apesar das indagações, Demétrius sabia que o próprio Arthur não aceitaria viver. O seu orgulho era maior do que o desejo de viver. Na verdade seu orgulho era maior do que tudo.
Perdido em seus próprios pensamentos, Demétrius volta a si no momento em que a cabeça da mãe, acomoda-se como uma pluma em  seu  ombro.  Estava  muito  cansada,  havia  ficado  a  noite  inteira  consolando  o  filho,  pesadelo  após  pesadelo.  O rosto fino de Suzenee encaixava-se perfeitamente entre os cabelos negros. Demétrius olhou para as faces coradas da mãe. Ela emanava uma aura de inquietude, de angústia. O menino queria de alguma forma, evitar que as tradições se mantivessem. Indagava-se:
- Por que eu? Por que tive que nascer com esta maldita marca?
No momento em que Demétrius proferiu tal frase, uma chuva incessante teve início, como se por obra sua.  Seus olhos se encheram de lágrimas. Sentia-se sufocado e não sabia o que fazer. Mais uma vez olhou para o rosto da mãe, como se dissesse: “Adeus...”.
Deitou a cabeça de Suzenee sobre o pano de seda onde antes ele se encontrava e saiu pela porta, sem olhar para trás.
*****
A chuva caia sobre as costas nuas de Demétrius, que caminhava sem destino pela Ilha dos Deuses.  Já caminhara por algumas horas e a chuva, insistente não havia cessado. Avistou ao longe o mar e um pouco mais adiante um pequeno cais, muito freqüentado por pescadores, vindos da única comunidade residente na ilha, além dos celestes.
Demétrius aproximou-se do cais. Estava exausto, com fome e frio. Refugiou-se então, em um barco, aparentemente vazio. Havia palha na parte coberta do barco. O menino, mirrado como era, acomodou-se perfeitamente sobre ela. Podendo dormir tranqüilamente.
*****
Finalmente Suzenee conseguira dormir, conseguira descansar.  Há dias não conseguia dormir direito, pensando na morte de Arthur, seu amor. Um amor oprimido, pois os reis não podem sentir o prazer dos simples mortais. Em toda sua vida, um rei celeste aprecia somente um prazer: o poder! Suzenee sabia disto. Por esse motivo manteve essa paixão tão obscura, mesmo com o passar de mais de um século.
A chuva cessara, e uma gota, apenas uma, ultrapassara o teto de palha da cabana onde Suzenee se encontrava, caiu sobre seu rosto e a acordou. Saindo de um salto, Suzenee sente que algo está errado. Ao ver que Demétrius não está na cama, o desespero toma conta de si por completo. Levanta-se e corre para fora, a procura do filho. Suzenee ultrapassa as pessoas que já se encontram fora de suas casas. Os olhos, como os de uma águia, rastreiam o filho e mesmo após revistar todos os lugares possíveis, parecem inconformados.  Demétrius fugira. E por mais que tentasse se convencer, ela já previa isto. Os pesadelos, a inquietude do filho, nunca a enganaram.
Mas apesar disto, Suzenee não desiste.  Os olhos emanam uma límpida energia azulada, enquanto de suas costas emergem majestosas asas amareladas que lhes rasga as vestes.  Ela voa em direção a praia como um raio.  Procura o filho novamente, mas nada encontra.
Neste momento, os olhos vão aos poucos se esvaziando da aura azulada que antes transbordava, as asas recolhem-se e Suzenee vai ao chão. Os olhos cheios de lágrimas lamentam duas perdas: o filho e Arthur, que havia se recolhido um dia antes do que o anunciado, para evitar despedidas dolorosas.
*****
 Os olhos de Demétrius abriram-se lentamente, depois que a luz do dia tocou seu rosto. Levou as mãos à face, para evitar que a luz penetrasse nos olhos, ainda dilatados.  Lembrou-se então, que como o dia já chegara deveria seguir viagem, pois em breve alguém o procuraria. Levantou-se e seguiu para o andar superior do barco. Tinha que ser rápido, pois em breve o dono da embarcação voltaria.
Ao subir um breve lance de escadas, Demétrius depara-se com um homem, baixo e com um cavanhaque negro. Tinha braços e pernas robustas, como o menino jamais vira. A careca do homem refletia a luz, que cegava Demétrius. O Anão espantou-se com o intruso, ameaçando um soco. Quando se deparou com a realidade: uma criança, nua e inocente, olhando sem medo, diretamente em seus olhos. O homem abriu um gigantesco sorriso e depois deu uma grande gargalhada, com sua voz grossa.  
- Olha só o que temos aqui Lewi! Um menino pelado!
Quando o Anão falou, Demétrius pode ver que seus dentes estavam podres, quase que totalmente.  Apesar disto era simpático. Depois disso, aproximou-se um elfo, que aparentava ser o chefe. Tinha os cabelos compridos e negros, presos em uma longa trança. Usava roupas melhores. Ao menos melhores do que os trapos que o Anão vestia. Lewi se aproximou com um sorriso nos lábios. Ao contrário do Anão, Lewi não era nenhum pouco simpático, e seu sorriso não emanava nem um pouco de felicidade ou satisfação. Aproximou-se de Demétrius e segurou-lhe o queixo, enquanto dizia:  
- Ora, ora! O que um menino como você está fazendo aqui? Sua mãe deve estar preocupada, não?  
O menino notou que suas pernas tremiam.  Estava com medo.  Nunca tivera contato com outros, senão os da sua espécie.  Lewi continuou:
 - Não precisa ficar com medo... Ao menos agora, não! - dando uma prolongada gargalhada, que não foi acompanhada pelo Anão.
– Vamos deixar você num lugar bonito! Muito bonito, mesmo!
 Demétrius não conseguia proferir nenhuma palavra, tamanho seu pavor. Só agora percebera que o barco não estava mais parado. Estavam navegando e pelo visto há muito tempo, pois não era mais possível ver sua ilha. Lewi largara seu rosto, depois de fazer sinal para o Anão com a cabeça. O Anão pega o menino e o leva novamente para a parte inferior do barco. Serve a Demétrius um copo com água e uma coxa de galinha, que estava com uma aparência terrível.  Tamanha era sua fome, que o garoto comeu o frango em menos de um minuto. Soluçava, pela ingestão repentina do alimento. O anão ria, como se satisfeito com a cena.
Navegaram durante mais algumas horas, até que Demétrius sentiu o tranco do barco ao atracar em algum lugar.  Lewi desce as escadas e pega o menino por um dos braços. Leva-o para cima. O menino vê que na verdade pararam próximos a uma praia. Não havia cais ou porto, apenas a praia. Lewi e o Anão olhavam-se. Demétrius suspenso no ar. De repente o anão grita:
- Você não vai fazer isso, Lewi... Vai?
- Não... – responde Lewi, com um leve sorriso maldoso no rosto. – Você vai!
A Anã apreensiva pega Demétrius das mãos de Lewi, e antes de consumar o ato, olha para o rosto do menino, com tristeza.
 - Desculpe... –resmunga o anão, antes de atirar o menino no mar.

Por: Armando Neto 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Anjos e sombras - Capitulo 1 – Esquecimento


Mais uma madrugada chuvosa no Recife, porcaria de cidade, abafada, úmida e mal cheirosa, pelo menos do ponto de vista de quem vive e mora embaixo das pontes da cidade. E ali está ele, com frio, com fome, mais uma vez encolhido embaixo de uma das pontes tentando se proteger não só da chuva, mas agora também deles.
Mas quem são eles? Por que estão atrás dele? Será por causa dos sonhos? Ou por causa de sua aparência? Apesar de seus 10, 11 anos ele tem a altura e aparência de um menino bem mais velho de 13, 14 anos, além de sua pele negra, mas isso não seria nada de mais em um país como o nosso, seria apenas mais um menino negro, sem casa e sem família, solto nas ruas da cidade, se não fossem seus lindos olhos azuis, seu cabelos negros lisos como os de um índio na altura dos ombros e seu estranho sinal de nascença, um pequeno circulo branco em sua nuca, mas existem mais coisas além disso.
 Longe dali em na cobertura de um prédio em Boa Viagem, em um apartamento a meia luz, uma estranha reunião acontece, seis homens estão sentados em volta de uma mesa, mas ainda há um lugar vazio e eles parecem estar à espera de alguém. O apartamento é estranho, suas paredes são pintadas de cinza chumbo, todos os móveis são negros e toda a iluminação faz lembrar velas ao invés de lâmpadas, todos estão vestidos de negro, mas o mais estranho é todos estarem de óculos escuros apesar da pouca iluminação do aposento.
Como em um filme de terror um relâmpago ilumina a tudo e nesse mesmo instante a porta se abre e por ela entra o sétimo convidado, encharcado e com frio, mas para ele isso não importa, que importa é estar ali junto com aqueles homens e saber o que ele pode fazer por eles.
Ele é o mais novo sentado à mesa, acabou de completar vinte e um anos, mas não está ansioso, apenas curioso com que está por acontecer, afinal de contas, também é por sua causa que aqueles homens estão ali. Por sua causa e por causa do pequeno círculo negro que tem na nuca como sinal de nascença.Mas isso nunca o incomodou, nem o fato de ter cabelos e olhos de um dourado que sempre chamavam a atenção de todos aonde quer que ele fosse.
Sai daqui peste! Essa bixiga lixa! Sempre vem tentar comer o que a gente consegue pegar. Sai daqui, sai antes que eu te dê um tabefe e quebre teus dentes! É, mais uma vez parece que ele vai ter que  dividir a comida com os ratos tomando cuidado para não ser mordido por eles. Engraçado, apesar da vida que leva ele sabe que não é como os outros, pois não fica doente, não tem marcas ou cicatrizes como os outros, seus dentes são brancos e mais fortes que os dos outros e ele tem todos os dentes, não é como eles que sempre falta algum ou às vezes todos. Além disso também sabia que era mais rápido do que os outros, pois sempre conseguia escapar da polícia ou dos matadores pulando muros como nenhum outro , mas foi há alguns dias atrás que ele descobriu o que realmente podia fazer quando conseguiu fugir deles.
Era uma sexta à noite, o Recife Antigo estava cheio início de ano, férias e não só a turma de sempre estava por lá, mas também vários turistas, ele gostava de ir por lá, pois sempre tinha alguma menina ou menino que gostava dele e sempre lhe pagava alguma coisa, ele não tinha mais a inocência da idade e sempre dormia com quem pudesse lhe dar um pouco de carinho, comida e um teto, mesmo que fosse só por uma noite, mas ele só conseguia ficar com jovens, nunca com ninguém com mais de trinta anos, e não lhe perguntem por que isso, ele simplesmente não consegue, ele pode sentar à mesa, conversar, brincar, mas ir pra cama com você se tiver mais de trinta, nunca. Não importa se for homem, ou mulher, ele não vai. Mas se você for jovem e conseguir leva-lo pra casa ou para algum outro lugar, saiba que ele fará de tudo por você, pois para ele essa é a melhor forma dele lhe agradecer pelo pouco de calor humano e carinho que você vai estar dando a ele e que ele nunca consegue encontrar embaixo das pontes por onde mora.
Pois foi numa sexta à noite quando ele estava conversando com um lindo moreno de olhos negros e que já tinha lhe dado um gostoso beijo quando ele os viu, entrado na boate em que eles estavam, dois homens altos, morenos vestidos de negro e de óculos escuros. Ele não sabia quem eram eles, mas assim que os viu só tinha uma certeza em sua mente, ele tinha que sair dali o mais rápido possível, mas sem chamar a atenção deles, mas como?
Ele olhou para Thiago e o puxou para o meio da pista de dança que acabava de ficar lotada, pois o DJ havia colocado nesse instante I’ll Survive, e todos foram dançar, nisso ele começa a abraçar e beijar Thiago, mas sempre olhando na direção aonde eles estavam, depois de alguns minutos vendo que eles avançavam em sua direção ele diz pra Thiago que precisa ir ao banheiro, mas consegue se abaixar e no meio da multidão muda de direção indo para a saída, ele ainda olhou para trás, pois estava triste, pela primeira vez ele estava gostando de verdade de um dos carinhas com quem ele tinha ficado, mas ele tem que sair dali e tem que ser agora. Ele saiu rapidamente e foi em direção da pracinha do Diário,não podia correr, pois não queria chamar a atenção de algum improvável policial que por acaso estivesse por ali por perto, além do mais ele estava bem vestido, essa era uma das causas que a turma da ponte sempre batia nele, pois tinham alguns dos caras que lhe dava uma roupas legais às vezes e a turma sempre roubava as roupas dele e o chamavam de garoto de programa e viadinho, mas ele nunca aceitou dinheiro de ninguém e mais de uma vez ele escapou da turma da ponte que depois de roubar toda sua roupa tentavam estuprá-lo mas de alguma forma ele sempre fugia.
Fugir, era isso o que ele tinha de fazer naquele momento, mas pra onde, e por que aqueles caras estavam atrás dele? Ele já tinha corrido metade da Conde da Boa Vista e não sabia se os caras ainda estavam atrás dele, ele tava cansado e com sede, tinha uns trocados que ele tinha arranjado de manhã pedindo na rua ia parar em algum canto e tomar um refrigerante ou uma água. A Coca-Cola descia gelada pela sua garganta quando, do nada, um arrepio o faz olhar para trás e ele vê um Vectra preto se aproximando, ele sabe que são eles então começa a correr e entra em uma das laterais da avenida, o carro o segue, sem ver para onde vai ele dá em uma rua sem saída nos fundos de um prédio o carro para bem a sua frente com os faróis altos ele vê os homens descerem do carro e irem em sua direção, um pavor enorme toma conta do seu corpo, ele não sabe por que, só sabe que se eles o pegarem será o seu fim, sem ter certeza do que fazer ele dá alguns passos em direção aos homens, que nesse momento param e observam o que ele pretende fazer, então ele se vira novamente dá uma pequena corrida e pula, mas acontece que ele não havia planejado o que aconteceu, ele planejou pular e tentar se agarrar na beirada do muro para então subir e pular pro outro lado, mas o que aconteceu foi que ele pulou por cima do muro caindo de mau jeito do outro lado, quase em cima de um dos carros que estavam estacionados na garagem do prédio, sem entender nada do que aconteceu e com o corpo todo doído ele se levantou e saiu dali antes que aparecesse alguém, no momento em que ele pulava o outro muro do prédio e corria por outra rua, eles que haviam ficado parados por alguns instantes pois não acreditaram no que tinham visto, também pularam por cima do muro e foram ao encalço dele. Quando ele reparou eles estavam bem atrás dele, então ele começou a aumentar a velocidade, e não acreditava o quão rápido estava correndo, ele nunca tinha corrido daquele jeito nem quando fugia da polícia, pra sua
sorte eles não conheciam bem a cidade e conseguiu engana-los, mas como ele conseguiu correr daquele jeito? E o pulo que ele deu sobre o muro? Como ele fez aquilo?
Bem no momento o que ele precisa fazer é se livrar daquelas roupas e achar algum buraco aonde possa se esconder por um tempo...
- Vocês nunca vão me pegar seus demônios desgraçados, eu nunca serei vencido.
- Você? O que você está fazendo aqui, você nunca se envolve diretamente nos combates, o que você está querendo dessa vez? Como você conseguiu isso? Eu já disse mais de uma vez... Eu nunca irei com você... O que você está fazendo?
Nãaaaaooooooo... Nãaaaaaaaaaaoooooooooooo!!!!!!
Ele acorda assustado mais uma vez... Respiração ofegante, suando frio, essa porra desse sonho que não me deixa dormir sossegado... Já não basta ter ficar escondido daqueles caras... Será que eles ainda tão por aí?????
Tico???
Porra dezessete... Tu quer me matar de susto???? O que tu ta fazendo aqui ???
Vim atrás de você... O que ta acontecendo? Tu nunca mais apareceu lá pelas bandas do Recife Antigo... Senti tua falta. (dezessete, na verdade ele tem vinte e um, mas o pessoal chama ele assim por que aparenta ter dezessete anos, seu nome é Jaime e é o único amigo que Tico tem, amigo e amante).
Tem uns caras estranhos atrás de mim e eu to me escondendo deles.
Mas o que foi que tu aprontou???
Nada, juro que não fiz porra nenhuma, esses caras apareceram derrepente e começaram a vir atrás de mim e eu não imagino o que eles querem comigo, e também não vou chegar junto pra perguntar.
Olha eu trouxe  dois sanduíche de mortadela e um frevo pra tu tomar, pelo jeito tu deve ta morrendo de fome.
To sim e muita!
Depois de comer, Tico conta pra dezessete o que tem acontecido com ele, fala do sonho e de como fugiu dos caras, quando eles terminam de conversar já é tarde e os dois dormem juntos como não faziam há um bom tempo.
O que? Eu não acredito que vocês ainda não conseguiram encontra-lo, ele é só um menino, vocês podem fazer muito mais coisas do que ele.
Mas chefe, estamos procurando por toda parte, mas não conseguimos encontra-lo, ele ta escondido em algum buraco que não sabemos qual é, isso se ele ainda estiver por aqui.
Não quero saber de desculpas, quero ele aqui o mais rápido possível, vocês sabem que Ele já está ficando impaciente e o nosso escolhido também, nós temos que encontra-lo antes que eles o encontrem.
Não precisa se preocupar senhor Adripus, eu vou encontra-lo e vou traze-lo aqui.
Lucien, eu não quero que você se arrisque, você sabe que é muito precioso para nós.
Não precisa se preocupar senhor, ele não sabe quem eu sou, e além disso eu vou ser bem mais discreto que esses seus capangas incompetentes, além do que temos algo em comum, acho que o sonho pode me levar até onde ele está, os silvos de raiva e desprezo que os dois capangas soltam arrepiariam o mais corajoso da cidade, mas o garoto não se importa e até se diverte com essa demonstração.
Me soltem, me soltem! O que vocês querem comigo? Luc por que você fez isso comigo? Pensei que você gostasse de mim?
Ah! Gostar de você? Criança... Eu quero que você morra para que possa tomar seu lugar, mas antes precisamos que você nos dê uma importante informação precisamos encontrar algo que só você deve saber aonde está e você vai nos contar, por bem ou por mal.
Mas o que vocês querem saber? Se eu disser vocês me soltam???
Talvez sim, pois quando conseguirmos o que queremos você vai se tornar completamente inofensivo para nós, não vai representar nenhum tipo de ameaça, é nós iremos solta-lo sim, mas só se você nos ajudar, do contrário você vai sofrer e muito.
Mas o que vocês querem saber? Se eu souber eu conto.
Bem senhores, parece que ele vai ser bem cooperativo conosco, pena, pelo jeito vocês não vão se divertir com ele do jeito que queriam, bem então nos diga, aonde está Nêmesis?
Quem?
Você sabe, Nêmesis, a espada.
Eu não sei do que tu ta falando, eu não sei o que é isso.
Ora, ora criança, acho melhor você cooperar, esses senhores aqui estão loucos pra possuir o seu corpo e tortura-lo para conseguir essa informação e é isso que eles irão fazer se você não me contar aonde está a espada.
Mas eu não sei aonde está essa coisa, nunca ouvi falar dela, to falando sério.
Bem eu lamento, eu até queria ajuda-lo pois gostei de você e aquelas noites que passamos juntos foram muito boas, mas já que você não quer me ajudar eu não posso fazer nada por você, levem-no.
Tico é arrastado pelos cabelos até uma sala escura aonde tem suas roupas arrancadas e lhe jogam um balde de água gelada, ele não sabe quanto tempo ele passa ali, só sabe que está com fome e que de vez em quando um deles aparece e lhe joga algo diferente no corpo, já jogaram água gelada, depois lama, mijo, água de esgoto, mas sempre perguntam antes se ele vai contar aonde está a espada, se eles diz que não sabem então viram o balde nele, até que um dia o pior acontece, ele é arrastado para uma outra sala aonde tem uns oito deles, sem roupa e excitados, com correntes, chicotes e outras coisas, então começa seu sofrimento, ele é acorrentado, estuprado e torturado e a única coisa que ele consegue fazer é chorar e pedir ajuda e isso acontece por várias vezes, depois de o abusarem ele é jogado de volta na pequena sala aonde foi colocado a primeira vez, mas agora lhe dão algo pra comer, pois não querem que ele morra antes de dizer aonde está a espada, ele diz que não sabe, mas Luc diz que sabe sim, por causa do sonho. Todo esse sofrimento por causa de um maldito sonho.
 Cidade de Prata, lar do anjos, aonde um certo grupo de anjos vêm tendo um horrível pesadelo no qual vêem um garoto sendo abusado e torturado, pedindo socorro e eles não podem ajudá-lo, pois não sabem como chegar até ele e o que mais os tortura é a única frase que ele tem repetido: Eu fui esquecido.
Mas há mais alguém que também está tendo esses pesadelos e está assustado, Miguel o arcanjo, líder do conselho da cidade de prata, ele sabe quem é aquele garoto, mas não consegue saber aonde ele está, seus melhores espiões não conseguiram encontrar aquele maldito castelo, provavelmente no inferno, aonde ele não pode fazer nada pra ajudar o garoto, mas não é exatamente o sofrimento do garoto que o abala, mas as palavras que ele repete: Fui esquecido. Demiurgo! Se ele não for ajudado, se ele sobreviver e de alguma forma conseguir escapar e lembrar de tudo, sua vingança não vai poupar nem mesmo a mim. Então ele os convoca, seus mais novos guerreiros, que já provaram seu valor em algumas missões, mas esta provavelmente poderá ser a mais importante e talvez a última de suas vidas, mas ele precisa dos melhores.

Por: Denis Machado

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Diário do Caçador - Fome de Carne - Parte1

Meu dia começou da mesma forma, com a necessidade de uma bebida. Minha cabeça estava girando e o cansaço era aparente em meu rosto. Mas, ainda assim, eu precisava continuar. Sempre precisamos...
A semana estava na mesma, o que me deixava irritado. Passei por dois locais e nada de interessante havia acontecido. - lembre-se que interessante é o mesmo que problema. - Resolvi tirar a semana de folga e evitar um apagão - principalmente enquanto estivesse dirigindo.
Dormi a manha inteira do primeiro dia e não tive tempo para ouvir ou mesmo pesquisar nada. Quando acordei fui surpreendido pela policia fazendo perguntas no local.
Evitei falar com eles e caminhei em direção ao restaurante. Pedi o de sempre - carne, arroz, feijão e o bom e velho copo de (foi mal, mas é verdade.) Coca. - e sentei para esperar e também tentar entender o que acontecera lá. A garçonete e também dona do lugar aproximou-se e enquanto servia minha refeição falou:
- Parece curioso?
Eu a olhei e assenti.
- Encontraram uma garota morta nas redondezas - explicou ela.- eles estão procurando suspeitos...
- O que significa que caras como eu estão na lista - completei.
Ela sorriu e retornou ao balcão. Continuei observando o local de onde estava, as pessoas eram abordadas de forma discreta e muito simples.
Olhei em volta e notei a garota no fundo do restaurante, ela era bonita. A única coisa que estava errada era a falta de apetite. Ela olhava em direção a comida, mas não a tocava.
Voltei minha atenção para meu almoço e antes que eu pudesse terminar os policiais sentaram em minha mesa.
- Boa tarde - disse um deles com certo sarcasmo.
Eu os encarei por um momento e continuei comendo.
- Sabe porquê estamos aqui? - perguntou o outro.
- Provavelmente pela jovem encontrada morta - disse depois de um longo gole no refrigerante.
Eles ficaram em silêncio.
- Vim saber do seu problema ainda pouco através da garçonete - bebi mais um pouco. - No que posso ser útil?
Percebi o primeiro a examinar minhas roupas. Por sorte havia deixado minha arma no quarto, o que me deixaria longe de problemas se resolvessem me revistar.
- Não parece surpreso e nem abalado com a notícia - disse o segundo na tentativa de sondar algo.
- Infelizmente, pessoas morrem todos os dias. E não podemos fazer nada para evitar isso. - respondi de forma sincera.
- Mas ao menos podemos pegar quem fez aquilo. - Bingo.
- Foi tão ruim assim o que aconteceu com a garota? - sondei.
Ele não responderam.
- Vocês é que devem fazer as perguntas, certo?
Os dois assentiram para mim.
Passamos cerca de meio hora conversando sobre minha pessoa, menti em quase todas as informações.
Não consegui muita coisa com eles, eram profissionais.
Assim que terminamos eles se retiraram e uma hora mais tarde se foram.
Resolvi fazer minhas próprias investigações, a começar por quem havia me alertado sobre o acontecido. Caminhei em direção ao bar e ela prontificou-se para me atender.
- Gostaria de fazer algumas perguntas para você - disse enquanto lhe passava o dinheiro da refeição.
- Todas que quiser - respondeu ela. Fiquei contente com a resposta.
Descobri pouca coisa, mas o que aconteceu com a garota ela sabia. A menina fora encontrada com diversas marcas de mordida pelo corpo e algumas partes foram arrancadas. - cara, essas coisas me deixam muito irritado. Como pode existir algo que faça isso a alguém?
Ela também informou que o assassinato ocorrera em um lugar há alguns quilômetros dali e que se eu fosse até lá encontraria problemas com a polícia. Agradeci a ela com uma gorjeta e sai em direção as ruas.
As pessoas olhavam-me de forma preocupada - minhas vestimentas não combinavam com o local.
Resolvi conferir o que acontecera no local, peguei minhas identificação e distintivo de delegado - que também eram falsos. - e rumei para oo local.
A mulher estava certa ao falar que teria problemas com a polícia local, fui parado. Eles perguntaram o que eu estava fazendo por ali e logo me fizeram sair do carro. só não fui revistado por causa do distintivo. - por sorte eles não faziam muitas perguntas para as pessoas de fora.
Caminhei pelo local devagar, um dos policiais me acompanhou, informando cada uma das coisas que perguntava com a maior prestatividade.
O corpo da jovem já estava sendo encaminhado para o necrotério, o que me deixava sem escolhas. Resolvi examinar o local onde ela fora encontrada. A quantidade de sangue do local era arrepiante - parecia que haviam sangrado um porco.
- Como ela estava quando a encontraram? - preguntei.
- Mal - respondeu com um leve tremor. -, alguém muito ruim agarrou aquela garota. Muito ruim mesmo.
- Ela não teve nenhuma chance, certo?
Ele sacudiu a cabeça negativamente.
Resolvi começar a trabalhar.
Caminhei de um lado para outro por alguns minutos, procurando por algo que eles não observariam. - claro, eles não saberiam o que procurar. - Agachei-me perto do sangue que ainda estava no local, examinei atentamente cada detalhe de onde o corpo estava. A garota havia caído de bruço, e em seguida foi virada para que o assassino pudesse mordê-la de frente. Isso explicava a quantidade de mato amassada onde ela fora encontrada, a luta corporal também teve sua parcela de culpa nisso, mas o estranho era que apenas ela havia sido ferida no processo.
Levantei-me e olhei em volta, havia um rastro em direção a mata. Eu o segui. Caminhei por alguns metros e em seguida saquei minha arma. Ele correra bastante para evitar ser encontrado, mas não era tão burro quando eu esperava. Em um determinado ponto ele se escondera. Fiquei parado por alguns instantes procurando por qualquer rastro, mas não havia nada.
- O que procura? - perguntou o policial que me recebera.
Acabei assustando-me e fui ao chão. Mas graças a isso notei o que não havia visto no início. Plantas mortas. - tá certo. Sei que não parece grande coisa, já que uma floresta tem isso aos montes. Mas vai me dizer que elas morrem fazendo um caminho?
Levantei-me e comecei a seguir o caminho. Passei também a tentar recordar do que produzia esse efeito. Caminhamos por alguns minutos e a trilha continuava, não seria difícil retornar, mas eu tinha companhia e já estava escurecendo.
- Vamos voltar - avisei.
- Mas podemos continuar - disse ele puxando a lanterna.
- Não podemos não - discordei enquanto o puxava pela camisa.
Ele seguiu minhas ordens, a contragosto, mas seguiu.
Quando retornamos o sol já estava atrás das arvores, o que fora uma boa ideia. - Durante a noite as criaturas que caço são mais perigosas.
Retornei para o motel para pegar minhas coisas e segui em direção ao necrotério da cidade, pedia informações e em seguida fui até o legista para que ele me mostrasse o corpo da garota - essa era a parte que eu mais detestava no trabalho. - A garota havia sido bonita. As marcas de mordida em seu corpo e rosto cuidaram para que ninguém a chamasse de bela novamente.
O legista me informou que a causa da morte fora o ferimento na garganta, que alem de provocar a perda de sangue arrancara parte da tireoide.
Consegui as informações sobre a coleta de DNA no corpo, havia outra pessoa no local, mas o exame não apontava ninguém da cidade. Resolvi procurar por informações sobre o que descobri na vegetação.
Comecei minhas pesquisas já tarde da noite, torcendo para que ninguém morresse até o amanhecer.
Busquei por livros que falassem sobre o apodrecimento de plantas causado por criaturas que se aproximassem delas. Os livros falavam bastante sobre o assunto, mas as criaturas que tinham esse efeito sobre as plantas eram diversas e estavam listadas em uma categoria e não em um tipo. Eram todas chamadas de mortos-vivos. O apodrecimentos das plantas era relacionado a quantidade de mácula que a 'coisa' continha. - entenda que mácula é quase o mesmo que corrupção ou coisas do tipo. - Sendo assim minha busca acabou tornando-se mais abrangente.
Descobri muito pouco à respeito do que procurava, apenas conceitos básicos.
Todos os mortos-vivos tem uma espécie de necessidade enquanto caminham pela terra, essas são variadas.
Os zumbis, por exemplo, tem necessidade de se alimentar a todo custo e por isso vagam sem rumo à procura do que precisam. No entanto, eles são criaturas sem mente. - o que descartava a possibilidade de ser a criatura que caçava. - Li também sobre os imbuídos, mortos que retornam através de órgãos que já foram vivos. Mas esses precisam de pessoas para trazê-los de volta. - se é que esses podem ser chamados de pessoas.
Eu desistira de procurar informações, resolvi mandar um e-mail com a situação para meus contatos - que não eram muitos. - e esperar para ver se conseguia algo.
Quando estava quase dormindo recebi o que esperava. Não sei dizer se era de um dos meus contatos, mas era exatamente o que procurava.
A criatura mencionada era um 'Ghul'. Uma criatura que alimentava-se de cadáveres em cemitérios. Provavelmente essa coisa encontrara nessas redondezas a oportunidade de alimentar-se dos vivos. - o que explicava o corpo da jovem.
Não havia informações da origem, mas era certo que essas coisas morriam como qualquer um.
Suas qualidades eram poucas, mas notáveis se comparadas a uma pessoa. Eram mais fortes e tinham grande percepção. Sua fraqueza era fome. - o que significava que um ataque aconteceria em breve. - O pior de suas qualidades era a capacidade de transformar a vítima. O que lembrou-me da garota no necrotério.
Eu precisava dar um jeito nisso. Reuni minhas coisas e resolvi seguir até lá.
Ao sair do quarto, notei alguém encostado em meu carro. Era o policial.
- Onde vai a essa hora? - perguntou ele.
Ele não estava fardado, o que significava que não estava de serviço.
- Não tenho tempo para discutir com você - respondi.
- Então vamos conversar na viajem - disse ele seguindo para o lado do passageiro. - Estou curioso a seu respeito, já que não acompanha o caso na delegacia e nem faz perguntas sobre o que aconteceu no passado da cidade. - Ele tinha razão.
- Tenho uma pergunta para você - disse a ele enquanto dava a partida. - As pessoas fazem trilhas por aqui?
- Com freqüência - respondeu tranquilamente.
Isso era um problema, se as pessoas continuassem a fazer trilhas naquela floresta a coisa teria alimento por décadas. Mas se esse era o primeiro caso que acontecera ali, significava que a coisa tinha chego a pouco tempo. Provavelmente uma semana.
- Precisamos ir até o necrotério - respondi torcendo para que ele não questionasse.
- Algo que deixou de perguntar?
Não respondi. Dei a partida no carro e seguimos em direção ao local. Enquanto percorríamos a estrada, jurei ter visto algo na mata, mas quando diminuí a velocidade o que quer que fosse já havia sumido.
Chegamos ao necrotério em trinta minutos. Quando saímos do carro, ele estranhou quando verifiquei minha arma.
- Vai usar isso contra os mortos? - brincou ele.
- Espero que não - respondi secamente.
Ele ficou em silêncio.
- Está com sua arma? - perguntei.
Ele a mostrou para mim.
Chegamos até a recepção e depois de nos identificarmos seguimos em frente.
- O que estamos fazendo aqui? - perguntou ele preocupado.
- Evitando mais mortes - respondi.
Quando chegamos à porta, encostei-me e procurei ouvir algum som que me alertasse de algo. Ele estranhou.
- O que está fazendo?
Saquei a arma e pedi para que ele fizesse silêncio. Ouvi gemidos de dentro da sala o que indicava um ataque ou mesmo o despertar da garota. Fiz sinal para que ele sacasse a sua e me seguisse.
- O que está acontecendo? - preguntou ele ainda mais inquieto.
- Faça o que estou falando ou vai ser morto aqui dentro.
Ele empalideceu. A verdade em minhas palavras foram duras demais.
- Algo aí dentro matou ou vai matar alguém, precisamos matá-lo antes que aconteça o pior. Consegue entender isso?
Ele assentiu para mim e sacou a arma. Estava tremendo.
Abri a porta e ele entrou junto comigo. A garota estava em cima de alguém, provavelmente o legista. Havia sangue por todo o local, o homem ainda se debatia enquanto ela mordia e lhe arrancava pedaços. Ao ouvir o som da porta, ela virou-se para nós. Os olhos estavam desvairados, a fome a consumira por completo.
- Atire! - gritei para ele.
Ele não exitou. Atiramos sempre que podíamos enquanto evitávamos os ataques da garota. - ele mostrou-se melhor do que imaginei. Esquivava dos ataques com habilidade enquanto atirava. - Descarregamos a munição na garota e no fim ela ainda estava agonizando no chão.
- O que é essa coisa? - perguntou ele.
- Um ghul - respondi. - e ainda não está morto.
Recarreguei a arma e terminei o serviço. Quando me virei ele estava andando de uma lado para outro na sala. Estava assustado e tentava entender o que havia acontecido. Esperei por suas perguntas enquanto recarregava o pente vazio.
- O que era isso? - perguntou novamente.
- Um morto-vivo - respondi voltando-me para o legista. - E ele vai se tornar um logo.
- Como assim?
- A o assassino que vocês procuravam transformou a garota e logo ele também vai se transformar.
- Mas ele está morto...
Eu o interrompi apontando para a garota e ele não disse mais nada.
- O tiroteio aqui dentro vai chamar atenção, precisamos queimar o corpo.
- Como assim?
Eu o olhei por um instante esperando que ele compreendesse sozinho a verdade. - é difícil entender, mais ainda aceitar que a verdade é completamente diferente do que imaginamos.
- Mas o que as pessoas vão pensar sobre isso? - perguntou.
- As pessoas não devem saber sobre isso. - respondi. - É mais seguro para elas.
Ele parou para pensar no que havia dito. Era complicado ver desse modo, mas é certo que se as pessoas soubessem sobre o que existe escondido na noite as coisas iriam sair do seu eixo.
Ele baixou a cabeça e respirou fundo, em seguida veio me ajudar a colocar o corpo em um saco e limpar o local. Tivemos sorte, a polícia chegou muito tempo depois do acontecido.
- Você vai ter problemas com o que aconteceu ali. - falei.
- Não estou preocupado com isso - disse ele olhando para o lado de fora. - Você disse que ainda tem mais uma dessas coisas solta na cidade.
- Sim.
- Se lhe ajudar a pegar esse desgraçado, vai me contar a verdade?
- Você tem certeza que quer isso?
Ele olhou para mim irritado.
- Você é quem sabe...
Dirigi até uma estrada abandonada onde poderíamos fazer o funeral de forma adequada. Retiramos os corpos e preparamos a fogueira. - sempre preferi seguir o ritual romano nesses casos.
Enquanto a fogueira queimava, conversamos sobre o que ele queria saber. Sei que era muito para passar  a um garoto e, para falar a verdade, não sabia qual seria sua reação. Enquanto observamos o corpo queimar, ele assimilava cada uma das coisas com naturalidade - o que me deixava preocupado.
- Temos mais uma coisa para caçar - disse ele indo em direção ao carro. - E, no caso de eu vim a morrer essa noite, creme o meu corpo no mesmo ritual.
As palavras dele me lembraram meu tutor.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Uma Sucúbo em Êxtase


Era uma noite fria de inverno, na cidade de Nova Iorque. Caminhando entre as pessoas um homem alto, de longos cabelos loiros, presos num rabo de cavalo. Vestia uma jaqueta jeans azul, uma calça também de jeans azul, óculos escuros, tênis. Era bonito, tinha um porte atlético. Seu nome era John Engels. Ele é um detetive particular, mas hoje está em seu dia de folga. Caminha pelas ruas, em meio à multidão frenética. 
Uma garota vestindo uma roupa colante preta entrega um panfleto. Era de uma nova casa noturna, que havia sido inaugurada. A casa em questão se chamava “Blood Doll”. Engels resolveu ir até lá conferir como era a casa noturna. 
Chegando lá, ele vê uma fachada bonita, em néon azul e vermelho, escrita “Blood and Darkness”. Local bonito, mas todo aquele preto incomodava Engels, mas mesmo assim reparava na beleza do lugar. 
Ele entrou na casa, após pagar a taxa e ser revistado por um segurança. Pelo menos o local era seguro. O local lembrava uma masmorra medieval, com todo aquele preto, correntes, uma luz roxa indireta. A casa tinha três ambientes distintos, separados por uma es-cada cada um. O primeiro ambiente tinha pessoa vestindo roupas pretas, algumas de vinil e outras de couro, usavam correntes, crucifixos e toda a sorte de penduricalhos macabros. 
   
“Here are the young men, 
a weight on their shoulders 
Here are the young men, 
well where have they been? 

Estava tocando uma música muito alta, mal se podia pensar naquele ambiente. Mas era no mínimo inusitado, Havia garotas se beijando entre si, o que para Engels não causava muito espanto (ele vira coisas muito mais depravadas de onde veio). Não era uma orgia por assim dizer, mas que chocaria muita gente. E eram meninas novas, não pareciam ter mais de dezesseis anos, mas Engels preferia deixar quieto.

We knocked on the doors 
of hell's darker chambers 
Pushed to the limits 
we dragged ourselves in 

Começava a reparar que também muitos homens começavam a chegar, dada certa hora da noite. “Góticos”, foi o que pensou Engels. Nunca entendera a razão de jovens ficarem vangloriando tanto a morte. 

Watched from the wings as 
the scenes were replaying 
We saw ourselves now as 
we never have seen 
Portrayal of the traumas and degeneration 
The sorrows we suffered 
and never were freed 
Where have they been” 

Resolvera ir a um ambiente mais calmo. Aquele era muito barulhento. Percebera que naquele ambiente, que era um pouco mais discreto, estavam reunidos executivos. Tocava uma música ambiente, pessoas mais bem vestidas estavam lá. Era mais agradável. 
Tinha um balcão, onde um homem loiro, muito bem vestido, fazia os drinks. Engels pediu uma bebida e pagou. Conversou com algumas pessoas e, mais tarde, viu uma porta na escada, cujo um cartaz dizia que a área acima só podia ser visitada mediante pagamento de uma taxa adicional e sendo maior de vinte e um anos. Engels mostrou sua carteira de identidade, pagou a diferença e subiu. 
O último andar era um clube noturno, onde rolava Strip-tease e tinha aquelas cabines de Peep Show. Havia muitos homens e mulheres por lá. Apesar da alta carga de eroti-cismo que tinha no local, ele era agradável. Rolava musicas dos mais variados estilos. 

“Queen of all my sleepless nights 
For whose beauty I, Faun 
have played my pipes, with heart 
Queen in white silk, skin like milk 
Horns of Faun, lips of dawn 
You are now honoured you with my presence 
As I'm honoured by your sight 
I crown your perfection 
The predator in your breast, I devour 

Começava uma sessão de Strip-tease. A primeira era uma mulher deslumbrante, de nome Melissa. Estava usando uma roupa negra provocante, que parecia muito com uma roupa medieval, uma espécie de espartilho. Seu corpo era deslumbrante, a roupa lhe era muito apertada para seus dotes físicos. Ela era baixa, não mais que um metro e sessenta, cabelos louros até a cintura, lisos, olhos verdes como duas grandes esmeraldas, uma pele levemente bronzeada, o que dava um toque exótico à moça. Possuía grandes e vermelhos lábios, voluptuosos. Os homens ficavam encantados ao vê-la. 

From where it burns spirals of exotic scents 
Rose, sandal, jasmine, all kinds of incense 
Aged fragrances only dreamed of once 
Dragons do dream far beyond the sense 
We make love in the dusty throne 
of a Modern Sodoma 

Ela era desejada por muitos ali no recinto. Mas após o Strip-tease, ela se aproximou de John e sussurrou em seus ouvidos: 
— Muito bem, querido. Gostaria de ter algo mais quente para tua noite? 
Engels respondeu, tremendo: 
— Não, senhorita. Eu não... 
— Silêncio — disse Melissa, com sua voz doce e delicada. - És muito bonito, cavalheiro. Venha comigo, mostrarei como tua noite valerá a pena. 
Normalmente Engels não aceitaria. Mas algo naquela mulher o fez aceitar. Ele tre-mia e muito. A mulher, delicadamente disse: 
— Como se chama, meu amor? 
— John Engels. 
— Nome bonito e elegante. 

Daylight has broken into a strange nostalgia 
Night tired candles seem like two lovers 
Melt in a embrace of conspiracy 
Between us there is this strange chemistry 
but would you die for me? 
would you die for what I've longed to be?” 

Foram até um quarto. Era luxuoso, com uma cama muito grande, com lençóis roxos, 
espelhos. Dava para escutar um pouco da música que estava tocando no terceiro piso. 

“The scent of a woman was not mine... 

Welcome home, darling 
Did you miss me? 
Wish to dwell in dear love? 

Ela começou a tirar a roupa de Engels. Tirou-lhe os óculos e se deslumbrou com os belos olhos azuis de Engels. Parecia como se nunca tivesse visto olhos tão bonitos. Come-çou a beijá-lo, que estava ainda um pouco relutante, mas aos poucos ia cedendo. 

Touch my milklike skin 
Feel the ocean 
Lick my deepest 
Hear the starry choir 

Rip off this lace 
that keeps me imprisoned 
But beware the enchantment 
for my eroticism is your oblivion” 

Quando estava quase pronto para transar com ela, algo súbito ocorre. Ele começa a enxergar um veio negro na aura dela. Como que por milagre sua habilidade de enxergar através das auras tinha sido acordada. Rapidamente, sem camisa, deu um salto para trás.   — Está com medo — perguntou a mulher, com um sorriso maldoso nos lábios.   Engels se sentiu um pouco mais fraco. A mulher havia lhe roubado um pouco de sua energia vital. 
  — Venha, meu amor — falava a mulher, suspirando um pouco — venha e se entre-gue a mim! 
  — Saia da minha frente — gritou Engels, com seus olhos começando a emitir uma 
luz branca e azul. 
— O que é você — diz a mulher, impressionada. 
— Eu te faço essa pergunta primeiro, demônio!!! 
A mulher ficou um pouco assustada. De repente surge na mulher um belo par de a-sas de couro, como as de um morcego. Sua silhueta fica um pouco mais diabólica, mas ain-da sim muito sensual. 
— Maldita sucúbo — resmunga Engels. 
— É o que sou  — fala a mulher, com um olhar malicioso sobre Engels. -  E o que és, afinal de contas? 
— Deverias saber quem sou, criatura de Lilith! 
— Como sabes de minha mãe? 
Então ela percebeu que John era na verdade Helaziel. Um anjo caído que voltou do Inferno. Não se sabe como ele fez isso, mas agora ele é perseguido tanto pelo céu como pelo inferno. 
A sucúbo conjurou uma adaga em sua mão direita e golpeou Helaziel. Ele começava a sangrar. 
— Seu sangue é doce  — diz a sucúbo, lambendo a lâmina — serás levado como 
um presente a minha mãe, maldito. Eu, Azeria, Dama da Luxúria serei conclamada o braço direito de minha mãe.
Helaziel então deu um soco no rosto do demônio. Eles começaram a brigar violen-tamente. O ferimento de Helaziel não parava de sangrar. Então ele criou um clarão em suas mãos, um efeito menor de magia e fugiu.   
Voltou até sua casa, onde preparou um ungüento mágico para cicatrizar o ferimento. 
Ele não podia acreditar que uma sucúbo podia ser tão forte. Resolvera relaxar um pouco. 
Subitamente, a janela de sua casa é quebrada. A sucúbo conseguiu localizar onde ele se escondia. Vergava agora uma armadura de combate, que realçava as silhuetas de seu corpo. Usava uma espada negra. 
Eles começaram a lutar. Helaziel estava desarmado. Tomou dois golpes no torso, que o fizeram sangrar muito. Estava subjugado e indefeso, prostrado no chão. Bastaria um golpe para matá-lo de vez. 
Mas Azeria não o fez. 
— Me mate logo — suspirou Helaziel. 
— Não, anjo-demônio. 
— Basta um golpe e terás meu cadáver para levar a sua mestra. Basta que eu esteja MORTO para que sejas recompensada. Não tenho muita valia vivo. 
— Não — disse a sucúbo, tremendo e olhando nos olhos azuis de Helaziel, que es-tavam ainda mais bonitos. 
Helaziel se recuperou e correu em volta da casa. Pegou uma espada que estava sobre a sua mesa. Era uma espada prateada. Ele então acertou um golpe violento na sucúbo. O sangue dela manchou o corpo de Helaziel. 
— Vá embora — disse Helaziel — vá enquanto estou te dando uma chance. Vá em-bora, demônio maldito! 
Ela fugiu, toda ensangüentada. Helaziel pegou parte do sangue dela e guardou num frasco. 
No dia seguinte, pegou esse sangue e misturou com várias ervas e materiais místicos. Criou um pó e pulverizou-o na sua casa, entoando palavras místicas. Teve sorte em ter sobrevivido. Esse pó criou uma barreira mágica que impede a sucúbo achar e entrar na casa de Helaziel de novo. 
Perto de um prédio, uma mulher muito bonita caminhava. Estava um pouco machu-cada, mas andava sem dificuldade. Resolveu entrar no “Blood and Darkness”, primeiro piso. Lá haviam muitas pessoas, vestidas de preto e com maquiagem pesada. Resolveu ficar um pouco por lá. E antes de ir até o terceiro piso, estava escutando a última música daquele 
DJ naquela noite. 

“Illness and plagues, torture and blight 
Is what she brings 
Mocking holy standards, deceiving feeble fools 
Is what she loves 
Granted with powers, gifted with magic 
Watching the world through raven eyes 

Damned woman mischievous whore 
Heretic princess 
Devil's own 

Her seductive elegance 
Excites your weak flesh 
Her diabolical beauty 
Enchants your bewildered mind 

You damn woman 
You mischievous whore 
You heretic princess 
You are Devil's own 

[performing an ecstatic dance:] 
A serenade made out of black magic 
She has learned to set souls afire 
And makes sure that you never 
Will leave it's trance 
Her diabolical beauty 
Enchants your bewildered mind” 

Por: Fabio Melo

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Diários do Caçador - Dia seguinte



A noite não havia acabado e mais uma pessoa havia perdido a vida. A parte mais difícil é ter de aceitar que não poderia ter feito nada.
Ainda pude ver quando os policiais entraram na casa e começaram a vasculhar a residência atrás de mim, eu não podia ficar para ajudar, meu 'trabalho' não é bem visto pela sociedade. Provavelmente constariam que eu era louco e internariam-me em um sanatório. Esperei o tempo certo e recuperei meu carro. Aluguei um quarto de motel e parei para pensar no ocorrido.
A cena demorou muito tempo para sair de minha cabeça - precisei de alguns drinques para acalmar os nervos. - resolvi vasculhar a história da casa para entender o que havia acontecido naquele local.
Fui até a biblioteca e procurei informações sobre os últimos dez anos. Passei o dia pesquisando nos jornais antigos e não deu em nada. Comecei a preocupar-me com o que aconteceria aos próximos moradores do local.
Ah sim, esqueci de informar que os pais da menina colocaram a casa a venda. Provavelmente pela dor da perda.
Quando a biblioteca fechou, resolvi jantar qualquer coisa em uma lanchonete. A televisão mostrava insistentemente o acontecido na casa e a morte do perito. As investigações continuariam no dia seguinte, mas nada do que eles fizessem ia poder ajudar a desvendar aquele caso.
Resolvi dormir e recomeçar minhas pesquisas no dia seguinte, dessa vez procuraria uma forma de acabar com aqueles espíritos e evitar mais mortes desnecessárias. Ou ao menos morreria tentando. - a noite foi ruim, sonhei com a morte do perito.
No dia seguinte fui até um cyber-café e comecei a pesquisar sobre informações que pudessem ajudar a resolver o problema. - claro que não ajudariam muito. Informações de sites especializados não ajudam em nada, verdade. Mas se você tem a experiência adequada e sabe onde procurar as informações, você pode encontrar livros que possam ajudar.
Espíritos malignos são almas que sofreram uma morte violenta ou mesmo se negam de atravessar. O problema era descobrir o que teria acontecido com as crianças, já que a cidade não tinha informações.
Resolvi procurar por pessoas que podiam me contar o que tinha acontecido. – essa é a parte mais difícil. Pessoas não gostam de bisbilhoteiros ainda mais aqueles que perguntam sobre coisas ruins.
Comecei minha busca por informações no hospital, a delegacia estava fora de questão. Recebi diversos foras até que encontrei a área psiquiátrica. Olhei alguns dos prontuários nas portas e constatei que: a maioria dos internados sofria da mesma doença e todos tinham alucinações.
O caso mais recente era o de uma senhora que afirmava ter sido atacada por crianças durante a noite. As questões eram: Como ela havia sobrevivido e onde fora o ataque?
Esperei por um dos médicos e pedi para conversar com ela. Disseram que ela estava sedada e que não poderia responder minhas perguntas essa noite. – eu não tinha mais tempo. – Insisti um pouco e por fim ele disse que eu poderia tentar. Foi o que fiz.
- Senhora Markinson – chamei.
Ela reagiu ao nome, mas ainda estava dormindo.
- Senhora Markinson, pode me ouvir? – tentei novamente.
Ela abriu os olhos.
- Pode me ouvir, senhora?
Ela assentiu.
- O que aconteceu com a senhora?
Ela fez um esforço monumental e fez sinal para que eu me aproximasse.
Quando encostei o ouvido em seus lábios ela sussurrou tudo o que eu precisava:
“Edgar Rage”.
Agradeci e corri para o cyber mais próximo. Digitei o nome na área de busca e descobri tudo o que precisava para entender o que havia acontecido. Uma chacina. Doze crianças foram mortas por um maníaco que não foi pego há seis anos. – essa seria minha próxima caçada. – As informações dizem que a casa era um abrigo para crianças abandonadas que foi fechado após o incidente. Infelizmente os corpos nunca foram encontrados. O maldito deixara um vídeo para que todos pudessem ver os assassinatos. – Bastardo!
Peguei o carro e fui em direção a casa, só havia uma forma de resolver o problema e essa era a parte mais difícil, achar os corpos.
Entrei durante a madrugada, e fui direto até o quarto da garota. Aos poucos senti o ar esfriar provavelmente por causa da manifestação dos espíritos no local. Agora o problema era: Como procurar por corpos sem me tornar um deles.
Lembrei da oração que fiz e passei a fazê-la constantemente para evitar que eles se aproximassem de mim. Dessa forma consegui tempo para procurar.
Eram quinze para as cinco quando consegui terminar de verificar o andar de cima, e ainda tinha todo o andar de baixo. – se eu não conseguisse algo, teria de me conformar com a morte de mais um.
O desespero é parte fundamental nesse serviço. É ele que nos motiva a trabalhar com mais afinco e conseguir resultados que surpreendem. Verifiquei os detalhes que eram necessários na casa e por fim cheguei à oficina.
Tive a idéia de procurar pela planta da casa, assim, talvez, eu pudesse encontrar um lugar que não estava a vista.
Tive sorte. E mais sorte ainda por descobri um porão. Olhei a planta atentamente e notei que o piso era todo cimentado. Os corpos haviam sido enterrados no porão e em seguida o maldito havia coberto o local.
Arrumei uma marreta e comecei a destruir o piso onde eu acreditava ser a entrada.
Foi quando o piso rachou e o alçapão apareceu. No instante que abri fui atingido por algo e fui lançado contra a parede. – por pouco não atingi o armário de ferramentas. Eu não teria sobrevivido.
Havia esquecido da oração.
Assim que voltei a pronunciar as palavras a força deixou que me movesse. Quando abri o porão o cheiro de podridão atingiu-me. Estava há muito tempo fechado.
Eu precisava continuar a proferir as palavras, sendo assim, ignorei o cheiro – o que não foi fácil. – e continuei meu caminho ainda orando.
Os corpos estavam todos ali, ainda expostos e com as roupas. Quase desabei com a cena, eram todas tão pequenas que mal tive coragem de olhar.
Eram quase seis horas. Eu precisaria de sal e algo que pudesse incendiar corri para a cozinha e acabei por sair de frente com os policiais que já estavam na casa.
Assim que eles me deram voz de prisão os dois voaram em direção as paredes, percebi que havia parado de orar com o susto. Assim que retomei a oração eles ficaram confusos e levantei as mãos para que entendessem que eu os salvara. Não funcionou.
Eles vieram em minha direção e acabaram me imobilizaram. Mandaram que eu ficasse quieto, mas eu não podia ou todos nós morreríamos. Fui agredido. – eles deviam estar com raiva de mim. Um dos seus havia sido morto e o principal suspeito era eu.
Tentei avisar, mas fui agredido novamente.
Foi quando eles tiveram a chance que precisavam. Os policiais foram lançados um para cada parede. Eles gritavam de dor. Eu ainda estava tonto e mal conseguia falar. Quando recuperei-me um deles já estava morto. Continuei com a oração e corri para perto do outro. Eu não teria tempo para explicar. Derrubei-o com um chute e tomei suas chaves para me libertar.
Assim que me livrei das algemas agarrei-o pelo casaco e corri em direção à cozinha.
- Pegue sal e algo que possa produzir fogo! – sei que parece estranho o lance do sal, meio lance de filme e coisa supersticiosa. Mas a crença de que o sal purifica é antiga, por isso a história de lançar sal sobre o ombro para deixar os males para trás. O fogo também serve como purificação e passagem direta para o outro mundo, aquele lance de queimar todas as impurezas da alma.
- O que está acontecendo? – perguntou ele.
- Espíritos!
- Você é louco?
Apontei para seu parceiro que estava caído. – sei que isso foi rude, mas ele entendeu que não estava brincando.
Assim que ele juntou as coisas corremos em direção à oficina. Agarrei uma lata de querosene e antes que pudéssemos chegar às escadas as crianças surgiram a nossa frente. Todas ainda marcadas pelos golpes e perfurações de faca que o maldito havia lhes feito.
O policial desesperou-se. Largou as coisas no chão e tentou correr, para seu azar as crianças o pegaram no caminho.  A oração não fazia efeito, o que me deixou confuso. – descobri mais tarde que os espíritos são mais fortes no local onde seu corpo está “enterrado”.
O policial gritava de dor e as crianças pareciam me ignorar. – até hoje não entendi o que aconteceu. – Elas divertiam-se com a agonia do homem, o que me alertou que seria o próximo. Resolvi agir no impulso, peguei o sal e os fósforos que ele trouxera corri na direção das crianças e atirei-me em direção a elas. Era como se elas não estivessem lá. Caí escada abaixo. Desloquei o ombro direito no processo.
Com muito esforço levantei, espalhei sal por todo o local e em seguida o querosene. Rezei pelas almas das crianças e em seguida ateei fogo em tudo. A gritaria no andar de cima era horrível. – talvez de dor, ou mesmo sofrimento por estarem sendo forçadas a abandonar essa existência.
No andar de cima o policial ainda estava vivo, mas seus ferimentos eram sérios. Se não fosse socorrido logo morreria. Eu não deixaria acontecer novamente. Chamei a ambulância e o retirei da casa que em instantes fora tomada pelo incêndio que começara no porão.
Ficamos sentados na rua observando a casa. Ele me olhava incrédulo com o que havia acontecido, enquanto eu pedia a Deus para que as crianças tivessem paz.
A polícia e a ambulância chegaram em menos de cinco minutos, o que me deixou contente. Sabia que ele sobreviveria. Os enfermeiros colocaram meu ombro no lugar e suturaram alguns dos cortes que tinha pelo corpo.
Assim que terminaram os policiais chegaram com uma bateria de perguntas. Menti. E meu novo amigo apoiou-me em todas as informações que dei. Falamos que um homem havia nos atacado, cai no porão enquanto eles lutavam no andar de cima. Ele foi atacado por mais um e acabou sendo nocauteado. Para encobrir as pistas eles tentaram incendiar a casa. – o resto você já sabe.
Na ambulância ele me encarava esperando por respostas.
- Você tem certeza que quer saber? – perguntei.
Ele me encarou por muito tempo enquanto pensava em sua resposta, parecia preocupado com suas crenças e com o impacto que a verdade causaria a sua vida. No entanto, a curiosidade era forte em seus olhos. Ele queria as respostas sobre desaparecimentos, assassinatos, mortes, espancamentos, internações misteriosas, doenças e uma infinidade de coisas que não tinham explicações lógicas e muito menos aceitáveis para a sociedade.
Eu o encarava pensando em como ia responder sua primeira pergunta. Como dizer que tudo o que a vida lhe ensinara a acreditar e não temer era real? Como falar sobre espíritos e sabe lá Deus o que mais existe nesse mundo? E por fim, imaginar como ele reagiria a essa quantidade de informação.
Quando chegamos ao hospital, ele ainda não havia respondido a minha pergunta. Deixei meu número de celular com ele e caminhei em direção a saída.
- É verdade? – perguntou ele enquanto os médicos e enfermeiros o levavam para algum lugar.
Eu apenas o olhei e assenti.

Eu queria dizer mais. Desabafar. Mas trabalhar com isso é uma profissão solitária. E acredite quando digo, eles estão mais seguros assim.


Fecho mais uma vez esse diário com a mesma raiva de quando o abri. - preciso de um drinque.