quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Diário do Caçador


Era mais uma das noites que tanto menosprezo nesse mundo. Após os acontecimentos do ultimo ano venho anotando meus problemas nesses diários.
Ainda estava no motel quando a notícia saiu. “Jovem encontrada morta dentro de casa”, o que parecia normal para um bairro como o que ela morava. Infelizmente descobri que as coisas não são normais há muito tempo, por isso resolvi verificar.
Arrumei minhas coisas e saí sem que o atendente me avistasse. Em uma loja de conveniência, comprei o jornal do dia e li a respeito do acontecido.
15 anos, bonita, tinha poucos amigos e começara a ter problemas com os pais. Influência ruim: Verdade. Mas de quem? Resolvi investigar.
Dirigi até o local.
Os vidros do carro embaçaram quando estacionei, algo muito ruim acontecera ali. Saí do carro portando a identificação de federal e aproximei-me dos peritos que pareciam terminar seu trabalho.
- Boa noite – disse ele olhando para mim desconfiado.
- Gostaria de fazer algumas perguntas – disse enquanto mostrava minha identificação falsa.
- No que posso ajudar?
- O que aconteceu? – perguntei olhando para a casa.
- A garota parece ter consumido algo que lhe fez muito mal, foi a informação do legista. A casa está limpa, encontramos alguns livros de oculto, mas nada de mais. Ela era gótica, com certeza.
Claro, claro. Agradeci suas informações e caminhei em direção a casa. Ele me acompanhou para dar detalhes dos locais onde haviam examinado provas. Entramos devagar e ele estendeu o braço apontando para o quarto. Caminhei em direção a sala e procurei pelas fotos de família.
Procurei pela garota, queria saber quais eram as mudanças em sua vida. O quanto ela havia mudado.
- Porque está olhando as fotos? – perguntou o perito.
- Elas dizem mais do que imagina – respondi. – A garota tinha uma vida e preciso saber sobre sua vida para saber o que aconteceu de verdade.
Ele estranhou, mas não disse nada.
As fotos eram de uma garota alegre, saudável e até então muito simpática com a família. O que levaria a essa mudança? Caminhei em direção a seu quarto com o perito ao meu lado, ele parecia curioso com o tipo de investigação que eu conduzia. Caminhamos ao quarto e com as luvas, que ele me emprestara, passei a procurar por mais informações sobre ela. Achei seus livros de estudo vi que as datas haviam parado no dia dezessete do mês passado. Olhei as fotos que ela tinha em seu quarto, algumas ainda continham alegria, as outras tornaram-se obscuras e muito tristes.
Fui até seu computador e o liguei. A senha já havia sido descoberta pelos  técnicos e acessei a ultima pagina da internet. Nenhum jovem de hoje se preocupa em apagar históricos. Era um site de espiritismo, o que piorava ainda mais minhas suspeitas. Os livros em cima da escrivaninha confirmaram tudo.
Livros de feitiços não deviam estar com uma garota, principalmente para serem usados com a finalidade de ganhar prestígio em meio aos amigos.
Foi quando começou.
A cadeira do quarto voou em minha direção e se não fosse pelo perito ela teria arrebentado comigo. Ele puxou a arma instintivamente e a porta fechou-se em resposta. Ele olhou para mim assustado, não sabia o que fazer. O ar esfriou bruscamente dentro do quarto, – era possível ver nossa respiração. – era um espírito e provavelmente muito irritado.
- Tenha cuidado com os móveis – avisei.
Ele olhou para mim com a mesma cara de duvida.
- Apenas tome cuidado – repeti o alerta.
Ele assentiu e preparou-se para o provável próximo ataque. Alguns livros começaram a ser lançados contra nós e ele começou a atirar em resposta. Tentei avisar para ele não fazer, mas antes que eu pudesse abrir a boca uma cadeira se chocou contra ele.
Corri para ajudar, mas algo me arremessou contra a parede. O choque foi tão grande que quase perdi os sentidos. O perito acordou e antes que pudesse se erguer foi arrastado para o centro do quarto. O medo em seu rosto alertou-me do que ia acontecer.
- Me ajuda – gritou ele esperando que eu pudesse fazer algo.
As luzes do quarto apagaram e pude ver, no espelho, o que estava arrastando ele. Eram crianças, muitas. Elas tinham cortes pelo corpo, corriam de um lado para outro com sorrisos diabólicos. Três delas haviam agarrado sua perna.
O que fazer? Era a pergunta que me passava em mente para ajudar o pobre coitado que era a vítima da vez. Eu estava preso, provavelmente por outros espíritos e os gritos não deixavam que me concentrasse.
Ele foi erguido no ar e começou a sangrar. O sangue jorrava por sua boca aos montes, o que me deixou em pânico. Aquilo fora o que aconteceu com a garota, e também aconteceria comigo se não pensasse em algo rápido. Procurei me concentrar no que poderia repelir espíritos e como fazer para alcançar qualquer coisa que estivesse ao meu alcance.
Recordei das Igrejas Evangélicas que retiravam espíritos de seus fiéis por meio de correntes de orações e resolvi usar de meu latin para dar poder às palavras que pronunciaria.
- Mali spiritus in tempore finito neque.Release hoc servus Dei discedere ex eo loco. Ea mea dicta per Christum lucrari et traction expellere se malum facere.
Assim que terminei de pronunciar as palavras o homem caiu. Assim que seu corpo tocou o chão, senti que não havia mais vida ali. E assim entendi o que havia acontecido com a garota. Tentei reanimar o homem algumas vezes, mesmo sabendo que seria em vão. No fim, sai pelos fundos sem ser notado.
A casa fora desabitada com os acontecimentos que se sucederam nos dias seguintes, mas por hoje estou cansado. Escreverei sobre isso outro dia.

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