O vento soprava
forte nas montanhas naquele fim de tarde.
Ao longe se podia ver um menino, sentado diante de um grande penhasco.
Aparentava ter seus sete anos. O corpo nu reluzia os poucos raios de luz que
ainda espalhavam-se pela ilha. Os olhos perdiam-se no horizonte, como se
estivessem em busca de algo.
Depois de um
alto e prolongado suspiro, Demétrius levanta-se e vai de encontro aos outros. O
pôr-do-sol se aproxima, é hora de recolher-se. O elfo celeste, apesar de
pequeno, era muito responsável. Sábio, desde que aprendera a falar dava
conselhos a seus futuros súditos.
Com a chegada
da noite, a mãe sempre acolhedora, acomoda o rosto de Demétrius sobre seu colo,
enquanto lhe acaricia as faces. Nunca sentira pele tão macia em toda a sua
vida. O rosto pálido de seu filho e os cabelos loiros que serpenteavam entre os
ombros, faziam dele, algo sobrenatural... Algo divino! Se não bastasse isso,
ele ainda tinha aquela marca. A Marca da Realeza, que lhe dava o poder sobre a tribo,
após a morte de Arthur, o atual rei.
Arthur era um homem velho, com cabelos e barba brancos, olhos claros, mas
apesar da aparência frágil, mantinha oculto dentro de si um poder imenso,
incalculável.
Apesar de
tanto poder e sabedoria, adquiridos com o passar das gerações, Arthur sabia que
sua Era havia se esvaído e que com a chegada do novo escolhido para o trono,
deveria seguir seu triste destino: a morte.
Os elfo
celestes têm tradições muito peculiares. Uma delas, que pode parecer estranha e
até mesmo macabra para outros povos, é a que trata do fim de uma Era. Quando
nasce um celeste
com a marca
da realeza, o
atual rei deve
ensinar-lhe tudo o
que sabe e
depois disso matar-se.
Apesar de
a tradição sempre
reinar entre os
celestes, Demétrius não
conseguia conformar-se com
a futura morte
de seu mestre. Com o passar do tempo, Arthur
tornou-se uma constante em sua vida, alguém que ele respeitava, e com o tempo
aprendeu a amar.
*****
A noite chegara novamente. Na
manhã seguinte Demétrius
receberia a coroa
e Arthur seguiria
seu destino. Os
pesadelos atormentaram o sono de Demétrius. Sua mãe passou a noite
inteira diante do filho, exausta.
Demétrius achava
tudo o que
estava acontecendo algo
terrível, sujo, indigno!
Como aquele povo
poderia deixar o
homem, que durante séculos
dedicou sua vida a eles, ir para a morte sem ao menos tentar alguma coisa?
Apesar das indagações, Demétrius sabia que o próprio Arthur não aceitaria
viver. O seu orgulho era maior do que o desejo de viver. Na verdade seu orgulho
era maior do que tudo.
Perdido em
seus próprios pensamentos, Demétrius volta a si no momento em que a cabeça da
mãe, acomoda-se como uma pluma em
seu ombro. Estava
muito cansada, havia
ficado a noite
inteira consolando o
filho, pesadelo após
pesadelo. O rosto fino de Suzenee
encaixava-se perfeitamente entre os cabelos negros. Demétrius olhou para as
faces coradas da mãe. Ela emanava uma aura de inquietude, de angústia. O menino
queria de alguma forma, evitar que as tradições se mantivessem. Indagava-se:
- Por que eu? Por
que tive que nascer com esta maldita marca?
No momento em que
Demétrius proferiu tal frase, uma chuva incessante teve início, como se por obra
sua. Seus olhos se encheram de lágrimas.
Sentia-se sufocado e não sabia o que fazer. Mais uma vez olhou para o rosto da
mãe, como se dissesse: “Adeus...”.
Deitou a
cabeça de Suzenee sobre o pano de seda onde antes ele se encontrava e saiu pela
porta, sem olhar para trás.
*****
A chuva caia sobre
as costas nuas de Demétrius, que caminhava sem destino pela Ilha dos Deuses. Já caminhara por algumas horas e a chuva,
insistente não havia cessado. Avistou ao longe o mar e um pouco mais adiante um
pequeno cais, muito freqüentado por pescadores, vindos da única comunidade
residente na ilha, além dos celestes.
Demétrius
aproximou-se do cais. Estava exausto, com fome e frio. Refugiou-se então, em um
barco, aparentemente vazio. Havia palha na parte coberta do barco. O menino,
mirrado como era, acomodou-se perfeitamente sobre ela. Podendo dormir
tranqüilamente.
*****
Finalmente Suzenee
conseguira dormir, conseguira descansar.
Há dias não conseguia dormir direito, pensando na morte de Arthur, seu
amor. Um amor oprimido, pois os reis não podem sentir o prazer dos simples
mortais. Em toda sua vida, um rei celeste aprecia somente um prazer: o poder!
Suzenee sabia disto. Por esse motivo manteve essa paixão tão obscura, mesmo com
o passar de mais de um século.
A chuva
cessara, e uma gota, apenas uma, ultrapassara o teto de palha da cabana onde
Suzenee se encontrava, caiu sobre seu rosto e a acordou. Saindo de um salto,
Suzenee sente que algo está errado. Ao ver que Demétrius não está na cama, o
desespero toma conta de si por completo. Levanta-se e corre para fora, a
procura do filho. Suzenee ultrapassa as pessoas que já se encontram fora de
suas casas. Os olhos, como os de uma águia, rastreiam o filho e mesmo após revistar
todos os lugares possíveis, parecem inconformados. Demétrius fugira. E por mais que tentasse se
convencer, ela já previa isto. Os pesadelos, a inquietude do filho, nunca a
enganaram.
Mas apesar disto,
Suzenee não desiste. Os olhos emanam uma
límpida energia azulada, enquanto de suas costas emergem majestosas asas amareladas
que lhes rasga as vestes. Ela voa em direção
a praia como um raio. Procura o filho novamente,
mas nada encontra.
Neste momento,
os olhos vão aos poucos se esvaziando da aura azulada que antes transbordava,
as asas recolhem-se e Suzenee vai ao chão. Os olhos cheios de lágrimas lamentam
duas perdas: o filho e Arthur, que havia se recolhido um dia antes do que o
anunciado, para evitar despedidas dolorosas.
*****
Os olhos de Demétrius abriram-se lentamente,
depois que a luz do dia tocou seu rosto. Levou as mãos à face, para evitar que
a luz penetrasse nos olhos, ainda dilatados.
Lembrou-se então, que como o dia já chegara deveria seguir viagem, pois em
breve alguém o procuraria. Levantou-se e seguiu para o andar superior do barco.
Tinha que ser rápido, pois em breve o dono da embarcação voltaria.
Ao subir um breve
lance de escadas, Demétrius depara-se com um homem, baixo e com um cavanhaque negro.
Tinha braços e pernas robustas, como o menino jamais vira. A careca do homem
refletia a luz, que cegava Demétrius. O Anão espantou-se com o intruso, ameaçando
um soco. Quando se deparou com a realidade: uma criança, nua e inocente,
olhando sem medo, diretamente em seus olhos. O homem abriu um gigantesco
sorriso e depois deu uma grande gargalhada, com sua voz grossa.
- Olha só o
que temos aqui Lewi! Um menino pelado!
Quando o Anão falou,
Demétrius pode ver que seus dentes estavam podres, quase que totalmente. Apesar disto era simpático. Depois disso,
aproximou-se um elfo, que aparentava ser o chefe. Tinha os cabelos compridos e
negros, presos em uma longa trança. Usava roupas melhores. Ao menos melhores do
que os trapos que o Anão vestia. Lewi se aproximou com um sorriso nos lábios.
Ao contrário do Anão, Lewi não era nenhum pouco simpático, e seu sorriso não emanava
nem um pouco de felicidade ou satisfação. Aproximou-se de Demétrius e
segurou-lhe o queixo, enquanto dizia:
- Ora, ora! O
que um menino como você está fazendo aqui? Sua mãe deve estar preocupada, não?
O menino notou
que suas pernas tremiam. Estava com medo. Nunca tivera contato com outros, senão os da sua
espécie. Lewi continuou:
- Não precisa ficar com medo... Ao menos
agora, não! - dando uma prolongada gargalhada, que não foi acompanhada pelo
Anão.
– Vamos deixar
você num lugar bonito! Muito bonito, mesmo!
Demétrius não conseguia proferir nenhuma
palavra, tamanho seu pavor. Só agora percebera que o barco não estava mais
parado. Estavam navegando e pelo visto há muito tempo, pois não era mais
possível ver sua ilha. Lewi largara seu rosto, depois de fazer sinal para o
Anão com a cabeça. O Anão pega o menino e o leva novamente para a parte
inferior do barco. Serve a Demétrius um copo com água e uma coxa de galinha, que
estava com uma aparência terrível.
Tamanha era sua fome, que o garoto comeu o frango em menos de um minuto.
Soluçava, pela ingestão repentina do alimento. O anão ria, como se satisfeito
com a cena.
Navegaram durante
mais algumas horas, até que Demétrius sentiu o tranco do barco ao atracar em algum
lugar. Lewi desce as escadas e pega o menino
por um dos braços. Leva-o para cima. O menino vê que na verdade pararam
próximos a uma praia. Não havia cais ou porto, apenas a praia. Lewi e o Anão
olhavam-se. Demétrius suspenso no ar. De repente o anão grita:
- Você não vai
fazer isso, Lewi... Vai?
- Não... –
responde Lewi, com um leve sorriso maldoso no rosto. – Você vai!
A Anã
apreensiva pega Demétrius das mãos de Lewi, e antes de consumar o ato, olha
para o rosto do menino, com tristeza.
- Desculpe... –resmunga o anão, antes de
atirar o menino no mar.
Por: Armando Neto



