quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Diários do Caçador - Dia seguinte



A noite não havia acabado e mais uma pessoa havia perdido a vida. A parte mais difícil é ter de aceitar que não poderia ter feito nada.
Ainda pude ver quando os policiais entraram na casa e começaram a vasculhar a residência atrás de mim, eu não podia ficar para ajudar, meu 'trabalho' não é bem visto pela sociedade. Provavelmente constariam que eu era louco e internariam-me em um sanatório. Esperei o tempo certo e recuperei meu carro. Aluguei um quarto de motel e parei para pensar no ocorrido.
A cena demorou muito tempo para sair de minha cabeça - precisei de alguns drinques para acalmar os nervos. - resolvi vasculhar a história da casa para entender o que havia acontecido naquele local.
Fui até a biblioteca e procurei informações sobre os últimos dez anos. Passei o dia pesquisando nos jornais antigos e não deu em nada. Comecei a preocupar-me com o que aconteceria aos próximos moradores do local.
Ah sim, esqueci de informar que os pais da menina colocaram a casa a venda. Provavelmente pela dor da perda.
Quando a biblioteca fechou, resolvi jantar qualquer coisa em uma lanchonete. A televisão mostrava insistentemente o acontecido na casa e a morte do perito. As investigações continuariam no dia seguinte, mas nada do que eles fizessem ia poder ajudar a desvendar aquele caso.
Resolvi dormir e recomeçar minhas pesquisas no dia seguinte, dessa vez procuraria uma forma de acabar com aqueles espíritos e evitar mais mortes desnecessárias. Ou ao menos morreria tentando. - a noite foi ruim, sonhei com a morte do perito.
No dia seguinte fui até um cyber-café e comecei a pesquisar sobre informações que pudessem ajudar a resolver o problema. - claro que não ajudariam muito. Informações de sites especializados não ajudam em nada, verdade. Mas se você tem a experiência adequada e sabe onde procurar as informações, você pode encontrar livros que possam ajudar.
Espíritos malignos são almas que sofreram uma morte violenta ou mesmo se negam de atravessar. O problema era descobrir o que teria acontecido com as crianças, já que a cidade não tinha informações.
Resolvi procurar por pessoas que podiam me contar o que tinha acontecido. – essa é a parte mais difícil. Pessoas não gostam de bisbilhoteiros ainda mais aqueles que perguntam sobre coisas ruins.
Comecei minha busca por informações no hospital, a delegacia estava fora de questão. Recebi diversos foras até que encontrei a área psiquiátrica. Olhei alguns dos prontuários nas portas e constatei que: a maioria dos internados sofria da mesma doença e todos tinham alucinações.
O caso mais recente era o de uma senhora que afirmava ter sido atacada por crianças durante a noite. As questões eram: Como ela havia sobrevivido e onde fora o ataque?
Esperei por um dos médicos e pedi para conversar com ela. Disseram que ela estava sedada e que não poderia responder minhas perguntas essa noite. – eu não tinha mais tempo. – Insisti um pouco e por fim ele disse que eu poderia tentar. Foi o que fiz.
- Senhora Markinson – chamei.
Ela reagiu ao nome, mas ainda estava dormindo.
- Senhora Markinson, pode me ouvir? – tentei novamente.
Ela abriu os olhos.
- Pode me ouvir, senhora?
Ela assentiu.
- O que aconteceu com a senhora?
Ela fez um esforço monumental e fez sinal para que eu me aproximasse.
Quando encostei o ouvido em seus lábios ela sussurrou tudo o que eu precisava:
“Edgar Rage”.
Agradeci e corri para o cyber mais próximo. Digitei o nome na área de busca e descobri tudo o que precisava para entender o que havia acontecido. Uma chacina. Doze crianças foram mortas por um maníaco que não foi pego há seis anos. – essa seria minha próxima caçada. – As informações dizem que a casa era um abrigo para crianças abandonadas que foi fechado após o incidente. Infelizmente os corpos nunca foram encontrados. O maldito deixara um vídeo para que todos pudessem ver os assassinatos. – Bastardo!
Peguei o carro e fui em direção a casa, só havia uma forma de resolver o problema e essa era a parte mais difícil, achar os corpos.
Entrei durante a madrugada, e fui direto até o quarto da garota. Aos poucos senti o ar esfriar provavelmente por causa da manifestação dos espíritos no local. Agora o problema era: Como procurar por corpos sem me tornar um deles.
Lembrei da oração que fiz e passei a fazê-la constantemente para evitar que eles se aproximassem de mim. Dessa forma consegui tempo para procurar.
Eram quinze para as cinco quando consegui terminar de verificar o andar de cima, e ainda tinha todo o andar de baixo. – se eu não conseguisse algo, teria de me conformar com a morte de mais um.
O desespero é parte fundamental nesse serviço. É ele que nos motiva a trabalhar com mais afinco e conseguir resultados que surpreendem. Verifiquei os detalhes que eram necessários na casa e por fim cheguei à oficina.
Tive a idéia de procurar pela planta da casa, assim, talvez, eu pudesse encontrar um lugar que não estava a vista.
Tive sorte. E mais sorte ainda por descobri um porão. Olhei a planta atentamente e notei que o piso era todo cimentado. Os corpos haviam sido enterrados no porão e em seguida o maldito havia coberto o local.
Arrumei uma marreta e comecei a destruir o piso onde eu acreditava ser a entrada.
Foi quando o piso rachou e o alçapão apareceu. No instante que abri fui atingido por algo e fui lançado contra a parede. – por pouco não atingi o armário de ferramentas. Eu não teria sobrevivido.
Havia esquecido da oração.
Assim que voltei a pronunciar as palavras a força deixou que me movesse. Quando abri o porão o cheiro de podridão atingiu-me. Estava há muito tempo fechado.
Eu precisava continuar a proferir as palavras, sendo assim, ignorei o cheiro – o que não foi fácil. – e continuei meu caminho ainda orando.
Os corpos estavam todos ali, ainda expostos e com as roupas. Quase desabei com a cena, eram todas tão pequenas que mal tive coragem de olhar.
Eram quase seis horas. Eu precisaria de sal e algo que pudesse incendiar corri para a cozinha e acabei por sair de frente com os policiais que já estavam na casa.
Assim que eles me deram voz de prisão os dois voaram em direção as paredes, percebi que havia parado de orar com o susto. Assim que retomei a oração eles ficaram confusos e levantei as mãos para que entendessem que eu os salvara. Não funcionou.
Eles vieram em minha direção e acabaram me imobilizaram. Mandaram que eu ficasse quieto, mas eu não podia ou todos nós morreríamos. Fui agredido. – eles deviam estar com raiva de mim. Um dos seus havia sido morto e o principal suspeito era eu.
Tentei avisar, mas fui agredido novamente.
Foi quando eles tiveram a chance que precisavam. Os policiais foram lançados um para cada parede. Eles gritavam de dor. Eu ainda estava tonto e mal conseguia falar. Quando recuperei-me um deles já estava morto. Continuei com a oração e corri para perto do outro. Eu não teria tempo para explicar. Derrubei-o com um chute e tomei suas chaves para me libertar.
Assim que me livrei das algemas agarrei-o pelo casaco e corri em direção à cozinha.
- Pegue sal e algo que possa produzir fogo! – sei que parece estranho o lance do sal, meio lance de filme e coisa supersticiosa. Mas a crença de que o sal purifica é antiga, por isso a história de lançar sal sobre o ombro para deixar os males para trás. O fogo também serve como purificação e passagem direta para o outro mundo, aquele lance de queimar todas as impurezas da alma.
- O que está acontecendo? – perguntou ele.
- Espíritos!
- Você é louco?
Apontei para seu parceiro que estava caído. – sei que isso foi rude, mas ele entendeu que não estava brincando.
Assim que ele juntou as coisas corremos em direção à oficina. Agarrei uma lata de querosene e antes que pudéssemos chegar às escadas as crianças surgiram a nossa frente. Todas ainda marcadas pelos golpes e perfurações de faca que o maldito havia lhes feito.
O policial desesperou-se. Largou as coisas no chão e tentou correr, para seu azar as crianças o pegaram no caminho.  A oração não fazia efeito, o que me deixou confuso. – descobri mais tarde que os espíritos são mais fortes no local onde seu corpo está “enterrado”.
O policial gritava de dor e as crianças pareciam me ignorar. – até hoje não entendi o que aconteceu. – Elas divertiam-se com a agonia do homem, o que me alertou que seria o próximo. Resolvi agir no impulso, peguei o sal e os fósforos que ele trouxera corri na direção das crianças e atirei-me em direção a elas. Era como se elas não estivessem lá. Caí escada abaixo. Desloquei o ombro direito no processo.
Com muito esforço levantei, espalhei sal por todo o local e em seguida o querosene. Rezei pelas almas das crianças e em seguida ateei fogo em tudo. A gritaria no andar de cima era horrível. – talvez de dor, ou mesmo sofrimento por estarem sendo forçadas a abandonar essa existência.
No andar de cima o policial ainda estava vivo, mas seus ferimentos eram sérios. Se não fosse socorrido logo morreria. Eu não deixaria acontecer novamente. Chamei a ambulância e o retirei da casa que em instantes fora tomada pelo incêndio que começara no porão.
Ficamos sentados na rua observando a casa. Ele me olhava incrédulo com o que havia acontecido, enquanto eu pedia a Deus para que as crianças tivessem paz.
A polícia e a ambulância chegaram em menos de cinco minutos, o que me deixou contente. Sabia que ele sobreviveria. Os enfermeiros colocaram meu ombro no lugar e suturaram alguns dos cortes que tinha pelo corpo.
Assim que terminaram os policiais chegaram com uma bateria de perguntas. Menti. E meu novo amigo apoiou-me em todas as informações que dei. Falamos que um homem havia nos atacado, cai no porão enquanto eles lutavam no andar de cima. Ele foi atacado por mais um e acabou sendo nocauteado. Para encobrir as pistas eles tentaram incendiar a casa. – o resto você já sabe.
Na ambulância ele me encarava esperando por respostas.
- Você tem certeza que quer saber? – perguntei.
Ele me encarou por muito tempo enquanto pensava em sua resposta, parecia preocupado com suas crenças e com o impacto que a verdade causaria a sua vida. No entanto, a curiosidade era forte em seus olhos. Ele queria as respostas sobre desaparecimentos, assassinatos, mortes, espancamentos, internações misteriosas, doenças e uma infinidade de coisas que não tinham explicações lógicas e muito menos aceitáveis para a sociedade.
Eu o encarava pensando em como ia responder sua primeira pergunta. Como dizer que tudo o que a vida lhe ensinara a acreditar e não temer era real? Como falar sobre espíritos e sabe lá Deus o que mais existe nesse mundo? E por fim, imaginar como ele reagiria a essa quantidade de informação.
Quando chegamos ao hospital, ele ainda não havia respondido a minha pergunta. Deixei meu número de celular com ele e caminhei em direção a saída.
- É verdade? – perguntou ele enquanto os médicos e enfermeiros o levavam para algum lugar.
Eu apenas o olhei e assenti.

Eu queria dizer mais. Desabafar. Mas trabalhar com isso é uma profissão solitária. E acredite quando digo, eles estão mais seguros assim.


Fecho mais uma vez esse diário com a mesma raiva de quando o abri. - preciso de um drinque.

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