A noite não havia acabado e mais
uma pessoa havia perdido a vida. A parte mais difícil é ter de aceitar que não
poderia ter feito nada.
Ainda pude ver quando os
policiais entraram na casa e começaram a vasculhar a residência atrás de mim,
eu não podia ficar para ajudar, meu 'trabalho' não é bem visto pela sociedade.
Provavelmente constariam que eu era louco e internariam-me em um sanatório.
Esperei o tempo certo e recuperei meu carro. Aluguei um quarto de motel e parei
para pensar no ocorrido.
A cena demorou muito tempo para
sair de minha cabeça - precisei de alguns drinques para acalmar os nervos. -
resolvi vasculhar a história da casa para entender o que havia acontecido
naquele local.
Fui até a biblioteca e procurei
informações sobre os últimos dez anos. Passei o dia pesquisando nos jornais
antigos e não deu em nada. Comecei a preocupar-me com o que aconteceria aos
próximos moradores do local.
Ah sim, esqueci de informar que
os pais da menina colocaram a casa a venda. Provavelmente pela dor da perda.
Quando a biblioteca fechou,
resolvi jantar qualquer coisa em uma lanchonete. A televisão mostrava
insistentemente o acontecido na casa e a morte do perito. As investigações
continuariam no dia seguinte, mas nada do que eles fizessem ia poder ajudar a
desvendar aquele caso.
Resolvi dormir e recomeçar minhas
pesquisas no dia seguinte, dessa vez procuraria uma forma de acabar com aqueles
espíritos e evitar mais mortes desnecessárias. Ou ao menos morreria tentando. -
a noite foi ruim, sonhei com a morte do perito.
No dia seguinte fui até um cyber-café
e comecei a pesquisar sobre informações que pudessem ajudar a resolver o
problema. - claro que não ajudariam muito. Informações de sites especializados
não ajudam em nada, verdade. Mas se você tem a experiência adequada e sabe onde
procurar as informações, você pode encontrar livros que possam ajudar.
Espíritos malignos são almas que
sofreram uma morte violenta ou mesmo se negam de atravessar. O problema era
descobrir o que teria acontecido com as crianças, já que a cidade não tinha
informações.
Resolvi procurar por pessoas que
podiam me contar o que tinha acontecido. – essa é a parte mais difícil. Pessoas
não gostam de bisbilhoteiros ainda mais aqueles que perguntam sobre coisas
ruins.
Comecei minha busca por
informações no hospital, a delegacia estava fora de questão. Recebi diversos
foras até que encontrei a área psiquiátrica. Olhei alguns dos prontuários nas
portas e constatei que: a maioria dos internados sofria da mesma doença e todos
tinham alucinações.
O caso mais recente era o de uma
senhora que afirmava ter sido atacada por crianças durante a noite. As questões
eram: Como ela havia sobrevivido e onde fora o ataque?
Esperei por um dos médicos e pedi
para conversar com ela. Disseram que ela estava sedada e que não poderia
responder minhas perguntas essa noite. – eu não tinha mais tempo. – Insisti um
pouco e por fim ele disse que eu poderia tentar. Foi o que fiz.
- Senhora Markinson – chamei.
Ela reagiu ao nome, mas ainda
estava dormindo.
- Senhora Markinson, pode me
ouvir? – tentei novamente.
Ela abriu os olhos.
- Pode me ouvir, senhora?
Ela assentiu.
- O que aconteceu com a senhora?
Ela fez um esforço monumental e
fez sinal para que eu me aproximasse.
Quando encostei o ouvido em seus
lábios ela sussurrou tudo o que eu precisava:
“Edgar Rage”.
Agradeci e corri para o cyber
mais próximo. Digitei o nome na área de busca e descobri tudo o que precisava
para entender o que havia acontecido. Uma chacina. Doze crianças foram mortas
por um maníaco que não foi pego há seis anos. – essa seria minha próxima
caçada. – As informações dizem que a casa era um abrigo para crianças
abandonadas que foi fechado após o incidente. Infelizmente os corpos nunca
foram encontrados. O maldito deixara um vídeo para que todos pudessem ver os
assassinatos. – Bastardo!
Peguei o carro e fui em direção a
casa, só havia uma forma de resolver o problema e essa era a parte mais
difícil, achar os corpos.
Entrei durante a madrugada, e fui
direto até o quarto da garota. Aos poucos senti o ar esfriar provavelmente por
causa da manifestação dos espíritos no local. Agora o problema era: Como
procurar por corpos sem me tornar um deles.
Lembrei da oração que fiz e
passei a fazê-la constantemente para evitar que eles se aproximassem de mim.
Dessa forma consegui tempo para procurar.
Eram quinze para as cinco quando
consegui terminar de verificar o andar de cima, e ainda tinha todo o andar de
baixo. – se eu não conseguisse algo, teria de me conformar com a morte de mais
um.
O desespero é parte fundamental
nesse serviço. É ele que nos motiva a trabalhar com mais afinco e conseguir
resultados que surpreendem. Verifiquei os detalhes que eram necessários na casa
e por fim cheguei à oficina.
Tive a idéia de procurar pela
planta da casa, assim, talvez, eu pudesse encontrar um lugar que não estava a
vista.
Tive sorte. E mais sorte ainda
por descobri um porão. Olhei a planta atentamente e notei que o piso era todo
cimentado. Os corpos haviam sido enterrados no porão e em seguida o maldito
havia coberto o local.
Arrumei uma marreta e comecei a
destruir o piso onde eu acreditava ser a entrada.
Foi quando o piso rachou e o
alçapão apareceu. No instante que abri fui atingido por algo e fui lançado
contra a parede. – por pouco não atingi o armário de ferramentas. Eu não teria
sobrevivido.
Havia esquecido da oração.
Assim que voltei a pronunciar as
palavras a força deixou que me movesse. Quando abri o porão o cheiro de
podridão atingiu-me. Estava há muito tempo fechado.
Eu precisava continuar a proferir
as palavras, sendo assim, ignorei o cheiro – o que não foi fácil. – e continuei
meu caminho ainda orando.
Os corpos estavam todos ali,
ainda expostos e com as roupas. Quase desabei com a cena, eram todas tão
pequenas que mal tive coragem de olhar.
Eram quase seis horas. Eu
precisaria de sal e algo que pudesse incendiar corri para a cozinha e acabei
por sair de frente com os policiais que já estavam na casa.
Assim que eles me deram voz de
prisão os dois voaram em direção as paredes, percebi que havia parado de orar
com o susto. Assim que retomei a oração eles ficaram confusos e levantei as
mãos para que entendessem que eu os salvara. Não funcionou.
Eles vieram em minha direção e
acabaram me imobilizaram. Mandaram que eu ficasse quieto, mas eu não podia ou
todos nós morreríamos. Fui agredido. – eles deviam estar com raiva de mim. Um
dos seus havia sido morto e o principal suspeito era eu.
Tentei avisar, mas fui agredido
novamente.
Foi quando eles tiveram a chance
que precisavam. Os policiais foram lançados um para cada parede. Eles gritavam
de dor. Eu ainda estava tonto e mal conseguia falar. Quando recuperei-me um
deles já estava morto. Continuei com a oração e corri para perto do outro. Eu
não teria tempo para explicar. Derrubei-o com um chute e tomei suas chaves para
me libertar.
Assim que me livrei das algemas
agarrei-o pelo casaco e corri em direção à cozinha.
- Pegue sal e algo que possa
produzir fogo! – sei que parece estranho o lance do sal, meio lance de filme e
coisa supersticiosa. Mas a crença de que o sal purifica é antiga, por isso a
história de lançar sal sobre o ombro para deixar os males para trás. O fogo
também serve como purificação e passagem direta para o outro mundo, aquele
lance de queimar todas as impurezas da alma.
- O que está acontecendo? –
perguntou ele.
- Espíritos!
- Você é louco?
Apontei para seu parceiro que
estava caído. – sei que isso foi rude, mas ele entendeu que não estava
brincando.
Assim que ele juntou as coisas
corremos em direção à oficina. Agarrei uma lata de querosene e antes que
pudéssemos chegar às escadas as crianças surgiram a nossa frente. Todas ainda
marcadas pelos golpes e perfurações de faca que o maldito havia lhes feito.
O policial desesperou-se. Largou
as coisas no chão e tentou correr, para seu azar as crianças o pegaram no
caminho. A oração não fazia efeito, o
que me deixou confuso. – descobri mais tarde que os espíritos são mais fortes
no local onde seu corpo está “enterrado”.
O policial gritava de dor e as
crianças pareciam me ignorar. – até hoje não entendi o que aconteceu. – Elas divertiam-se
com a agonia do homem, o que me alertou que seria o próximo. Resolvi agir no
impulso, peguei o sal e os fósforos que ele trouxera corri na direção das
crianças e atirei-me em direção a elas. Era como se elas não estivessem lá. Caí
escada abaixo. Desloquei o ombro direito no processo.
Com muito esforço levantei,
espalhei sal por todo o local e em seguida o querosene. Rezei pelas almas das
crianças e em seguida ateei fogo em tudo. A gritaria no andar de cima era
horrível. – talvez de dor, ou mesmo sofrimento por estarem sendo forçadas a
abandonar essa existência.
No andar de cima o policial ainda
estava vivo, mas seus ferimentos eram sérios. Se não fosse socorrido logo morreria.
Eu não deixaria acontecer novamente. Chamei a ambulância e o retirei da casa
que em instantes fora tomada pelo incêndio que começara no porão.
Ficamos sentados na rua
observando a casa. Ele me olhava incrédulo com o que havia acontecido, enquanto
eu pedia a Deus para que as crianças tivessem paz.
A polícia e a ambulância chegaram
em menos de cinco minutos, o que me deixou contente. Sabia que ele
sobreviveria. Os enfermeiros colocaram meu ombro no lugar e suturaram alguns
dos cortes que tinha pelo corpo.
Assim que terminaram os policiais
chegaram com uma bateria de perguntas. Menti. E meu novo amigo apoiou-me em
todas as informações que dei. Falamos que um homem havia nos atacado, cai no
porão enquanto eles lutavam no andar de cima. Ele foi atacado por mais um e
acabou sendo nocauteado. Para encobrir as pistas eles tentaram incendiar a
casa. – o resto você já sabe.
Na ambulância ele me encarava esperando
por respostas.
- Você tem certeza que quer saber?
– perguntei.
Ele me encarou por muito tempo
enquanto pensava em sua resposta, parecia preocupado com suas crenças e com o
impacto que a verdade causaria a sua vida. No entanto, a curiosidade era forte
em seus olhos. Ele queria as respostas sobre desaparecimentos, assassinatos,
mortes, espancamentos, internações misteriosas, doenças e uma infinidade de
coisas que não tinham explicações lógicas e muito menos aceitáveis para a
sociedade.
Eu o encarava pensando em como ia
responder sua primeira pergunta. Como dizer que tudo o que a vida lhe ensinara
a acreditar e não temer era real? Como falar sobre espíritos e sabe lá Deus o
que mais existe nesse mundo? E por fim, imaginar como ele reagiria a essa
quantidade de informação.
Quando chegamos ao hospital, ele
ainda não havia respondido a minha pergunta. Deixei meu número de celular com
ele e caminhei em direção a saída.
- É verdade? – perguntou ele
enquanto os médicos e enfermeiros o levavam para algum lugar.
Eu apenas o olhei e assenti.
Eu queria dizer mais. Desabafar.
Mas trabalhar com isso é uma profissão solitária. E acredite quando digo, eles
estão mais seguros assim.
Fecho mais uma vez esse diário com a mesma raiva de quando o abri. - preciso de um drinque.
Fecho mais uma vez esse diário com a mesma raiva de quando o abri. - preciso de um drinque.

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