terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Diário do Caçador - Fome de Carne - Parte1

Meu dia começou da mesma forma, com a necessidade de uma bebida. Minha cabeça estava girando e o cansaço era aparente em meu rosto. Mas, ainda assim, eu precisava continuar. Sempre precisamos...
A semana estava na mesma, o que me deixava irritado. Passei por dois locais e nada de interessante havia acontecido. - lembre-se que interessante é o mesmo que problema. - Resolvi tirar a semana de folga e evitar um apagão - principalmente enquanto estivesse dirigindo.
Dormi a manha inteira do primeiro dia e não tive tempo para ouvir ou mesmo pesquisar nada. Quando acordei fui surpreendido pela policia fazendo perguntas no local.
Evitei falar com eles e caminhei em direção ao restaurante. Pedi o de sempre - carne, arroz, feijão e o bom e velho copo de (foi mal, mas é verdade.) Coca. - e sentei para esperar e também tentar entender o que acontecera lá. A garçonete e também dona do lugar aproximou-se e enquanto servia minha refeição falou:
- Parece curioso?
Eu a olhei e assenti.
- Encontraram uma garota morta nas redondezas - explicou ela.- eles estão procurando suspeitos...
- O que significa que caras como eu estão na lista - completei.
Ela sorriu e retornou ao balcão. Continuei observando o local de onde estava, as pessoas eram abordadas de forma discreta e muito simples.
Olhei em volta e notei a garota no fundo do restaurante, ela era bonita. A única coisa que estava errada era a falta de apetite. Ela olhava em direção a comida, mas não a tocava.
Voltei minha atenção para meu almoço e antes que eu pudesse terminar os policiais sentaram em minha mesa.
- Boa tarde - disse um deles com certo sarcasmo.
Eu os encarei por um momento e continuei comendo.
- Sabe porquê estamos aqui? - perguntou o outro.
- Provavelmente pela jovem encontrada morta - disse depois de um longo gole no refrigerante.
Eles ficaram em silêncio.
- Vim saber do seu problema ainda pouco através da garçonete - bebi mais um pouco. - No que posso ser útil?
Percebi o primeiro a examinar minhas roupas. Por sorte havia deixado minha arma no quarto, o que me deixaria longe de problemas se resolvessem me revistar.
- Não parece surpreso e nem abalado com a notícia - disse o segundo na tentativa de sondar algo.
- Infelizmente, pessoas morrem todos os dias. E não podemos fazer nada para evitar isso. - respondi de forma sincera.
- Mas ao menos podemos pegar quem fez aquilo. - Bingo.
- Foi tão ruim assim o que aconteceu com a garota? - sondei.
Ele não responderam.
- Vocês é que devem fazer as perguntas, certo?
Os dois assentiram para mim.
Passamos cerca de meio hora conversando sobre minha pessoa, menti em quase todas as informações.
Não consegui muita coisa com eles, eram profissionais.
Assim que terminamos eles se retiraram e uma hora mais tarde se foram.
Resolvi fazer minhas próprias investigações, a começar por quem havia me alertado sobre o acontecido. Caminhei em direção ao bar e ela prontificou-se para me atender.
- Gostaria de fazer algumas perguntas para você - disse enquanto lhe passava o dinheiro da refeição.
- Todas que quiser - respondeu ela. Fiquei contente com a resposta.
Descobri pouca coisa, mas o que aconteceu com a garota ela sabia. A menina fora encontrada com diversas marcas de mordida pelo corpo e algumas partes foram arrancadas. - cara, essas coisas me deixam muito irritado. Como pode existir algo que faça isso a alguém?
Ela também informou que o assassinato ocorrera em um lugar há alguns quilômetros dali e que se eu fosse até lá encontraria problemas com a polícia. Agradeci a ela com uma gorjeta e sai em direção as ruas.
As pessoas olhavam-me de forma preocupada - minhas vestimentas não combinavam com o local.
Resolvi conferir o que acontecera no local, peguei minhas identificação e distintivo de delegado - que também eram falsos. - e rumei para oo local.
A mulher estava certa ao falar que teria problemas com a polícia local, fui parado. Eles perguntaram o que eu estava fazendo por ali e logo me fizeram sair do carro. só não fui revistado por causa do distintivo. - por sorte eles não faziam muitas perguntas para as pessoas de fora.
Caminhei pelo local devagar, um dos policiais me acompanhou, informando cada uma das coisas que perguntava com a maior prestatividade.
O corpo da jovem já estava sendo encaminhado para o necrotério, o que me deixava sem escolhas. Resolvi examinar o local onde ela fora encontrada. A quantidade de sangue do local era arrepiante - parecia que haviam sangrado um porco.
- Como ela estava quando a encontraram? - preguntei.
- Mal - respondeu com um leve tremor. -, alguém muito ruim agarrou aquela garota. Muito ruim mesmo.
- Ela não teve nenhuma chance, certo?
Ele sacudiu a cabeça negativamente.
Resolvi começar a trabalhar.
Caminhei de um lado para outro por alguns minutos, procurando por algo que eles não observariam. - claro, eles não saberiam o que procurar. - Agachei-me perto do sangue que ainda estava no local, examinei atentamente cada detalhe de onde o corpo estava. A garota havia caído de bruço, e em seguida foi virada para que o assassino pudesse mordê-la de frente. Isso explicava a quantidade de mato amassada onde ela fora encontrada, a luta corporal também teve sua parcela de culpa nisso, mas o estranho era que apenas ela havia sido ferida no processo.
Levantei-me e olhei em volta, havia um rastro em direção a mata. Eu o segui. Caminhei por alguns metros e em seguida saquei minha arma. Ele correra bastante para evitar ser encontrado, mas não era tão burro quando eu esperava. Em um determinado ponto ele se escondera. Fiquei parado por alguns instantes procurando por qualquer rastro, mas não havia nada.
- O que procura? - perguntou o policial que me recebera.
Acabei assustando-me e fui ao chão. Mas graças a isso notei o que não havia visto no início. Plantas mortas. - tá certo. Sei que não parece grande coisa, já que uma floresta tem isso aos montes. Mas vai me dizer que elas morrem fazendo um caminho?
Levantei-me e comecei a seguir o caminho. Passei também a tentar recordar do que produzia esse efeito. Caminhamos por alguns minutos e a trilha continuava, não seria difícil retornar, mas eu tinha companhia e já estava escurecendo.
- Vamos voltar - avisei.
- Mas podemos continuar - disse ele puxando a lanterna.
- Não podemos não - discordei enquanto o puxava pela camisa.
Ele seguiu minhas ordens, a contragosto, mas seguiu.
Quando retornamos o sol já estava atrás das arvores, o que fora uma boa ideia. - Durante a noite as criaturas que caço são mais perigosas.
Retornei para o motel para pegar minhas coisas e segui em direção ao necrotério da cidade, pedia informações e em seguida fui até o legista para que ele me mostrasse o corpo da garota - essa era a parte que eu mais detestava no trabalho. - A garota havia sido bonita. As marcas de mordida em seu corpo e rosto cuidaram para que ninguém a chamasse de bela novamente.
O legista me informou que a causa da morte fora o ferimento na garganta, que alem de provocar a perda de sangue arrancara parte da tireoide.
Consegui as informações sobre a coleta de DNA no corpo, havia outra pessoa no local, mas o exame não apontava ninguém da cidade. Resolvi procurar por informações sobre o que descobri na vegetação.
Comecei minhas pesquisas já tarde da noite, torcendo para que ninguém morresse até o amanhecer.
Busquei por livros que falassem sobre o apodrecimento de plantas causado por criaturas que se aproximassem delas. Os livros falavam bastante sobre o assunto, mas as criaturas que tinham esse efeito sobre as plantas eram diversas e estavam listadas em uma categoria e não em um tipo. Eram todas chamadas de mortos-vivos. O apodrecimentos das plantas era relacionado a quantidade de mácula que a 'coisa' continha. - entenda que mácula é quase o mesmo que corrupção ou coisas do tipo. - Sendo assim minha busca acabou tornando-se mais abrangente.
Descobri muito pouco à respeito do que procurava, apenas conceitos básicos.
Todos os mortos-vivos tem uma espécie de necessidade enquanto caminham pela terra, essas são variadas.
Os zumbis, por exemplo, tem necessidade de se alimentar a todo custo e por isso vagam sem rumo à procura do que precisam. No entanto, eles são criaturas sem mente. - o que descartava a possibilidade de ser a criatura que caçava. - Li também sobre os imbuídos, mortos que retornam através de órgãos que já foram vivos. Mas esses precisam de pessoas para trazê-los de volta. - se é que esses podem ser chamados de pessoas.
Eu desistira de procurar informações, resolvi mandar um e-mail com a situação para meus contatos - que não eram muitos. - e esperar para ver se conseguia algo.
Quando estava quase dormindo recebi o que esperava. Não sei dizer se era de um dos meus contatos, mas era exatamente o que procurava.
A criatura mencionada era um 'Ghul'. Uma criatura que alimentava-se de cadáveres em cemitérios. Provavelmente essa coisa encontrara nessas redondezas a oportunidade de alimentar-se dos vivos. - o que explicava o corpo da jovem.
Não havia informações da origem, mas era certo que essas coisas morriam como qualquer um.
Suas qualidades eram poucas, mas notáveis se comparadas a uma pessoa. Eram mais fortes e tinham grande percepção. Sua fraqueza era fome. - o que significava que um ataque aconteceria em breve. - O pior de suas qualidades era a capacidade de transformar a vítima. O que lembrou-me da garota no necrotério.
Eu precisava dar um jeito nisso. Reuni minhas coisas e resolvi seguir até lá.
Ao sair do quarto, notei alguém encostado em meu carro. Era o policial.
- Onde vai a essa hora? - perguntou ele.
Ele não estava fardado, o que significava que não estava de serviço.
- Não tenho tempo para discutir com você - respondi.
- Então vamos conversar na viajem - disse ele seguindo para o lado do passageiro. - Estou curioso a seu respeito, já que não acompanha o caso na delegacia e nem faz perguntas sobre o que aconteceu no passado da cidade. - Ele tinha razão.
- Tenho uma pergunta para você - disse a ele enquanto dava a partida. - As pessoas fazem trilhas por aqui?
- Com freqüência - respondeu tranquilamente.
Isso era um problema, se as pessoas continuassem a fazer trilhas naquela floresta a coisa teria alimento por décadas. Mas se esse era o primeiro caso que acontecera ali, significava que a coisa tinha chego a pouco tempo. Provavelmente uma semana.
- Precisamos ir até o necrotério - respondi torcendo para que ele não questionasse.
- Algo que deixou de perguntar?
Não respondi. Dei a partida no carro e seguimos em direção ao local. Enquanto percorríamos a estrada, jurei ter visto algo na mata, mas quando diminuí a velocidade o que quer que fosse já havia sumido.
Chegamos ao necrotério em trinta minutos. Quando saímos do carro, ele estranhou quando verifiquei minha arma.
- Vai usar isso contra os mortos? - brincou ele.
- Espero que não - respondi secamente.
Ele ficou em silêncio.
- Está com sua arma? - perguntei.
Ele a mostrou para mim.
Chegamos até a recepção e depois de nos identificarmos seguimos em frente.
- O que estamos fazendo aqui? - perguntou ele preocupado.
- Evitando mais mortes - respondi.
Quando chegamos à porta, encostei-me e procurei ouvir algum som que me alertasse de algo. Ele estranhou.
- O que está fazendo?
Saquei a arma e pedi para que ele fizesse silêncio. Ouvi gemidos de dentro da sala o que indicava um ataque ou mesmo o despertar da garota. Fiz sinal para que ele sacasse a sua e me seguisse.
- O que está acontecendo? - preguntou ele ainda mais inquieto.
- Faça o que estou falando ou vai ser morto aqui dentro.
Ele empalideceu. A verdade em minhas palavras foram duras demais.
- Algo aí dentro matou ou vai matar alguém, precisamos matá-lo antes que aconteça o pior. Consegue entender isso?
Ele assentiu para mim e sacou a arma. Estava tremendo.
Abri a porta e ele entrou junto comigo. A garota estava em cima de alguém, provavelmente o legista. Havia sangue por todo o local, o homem ainda se debatia enquanto ela mordia e lhe arrancava pedaços. Ao ouvir o som da porta, ela virou-se para nós. Os olhos estavam desvairados, a fome a consumira por completo.
- Atire! - gritei para ele.
Ele não exitou. Atiramos sempre que podíamos enquanto evitávamos os ataques da garota. - ele mostrou-se melhor do que imaginei. Esquivava dos ataques com habilidade enquanto atirava. - Descarregamos a munição na garota e no fim ela ainda estava agonizando no chão.
- O que é essa coisa? - perguntou ele.
- Um ghul - respondi. - e ainda não está morto.
Recarreguei a arma e terminei o serviço. Quando me virei ele estava andando de uma lado para outro na sala. Estava assustado e tentava entender o que havia acontecido. Esperei por suas perguntas enquanto recarregava o pente vazio.
- O que era isso? - perguntou novamente.
- Um morto-vivo - respondi voltando-me para o legista. - E ele vai se tornar um logo.
- Como assim?
- A o assassino que vocês procuravam transformou a garota e logo ele também vai se transformar.
- Mas ele está morto...
Eu o interrompi apontando para a garota e ele não disse mais nada.
- O tiroteio aqui dentro vai chamar atenção, precisamos queimar o corpo.
- Como assim?
Eu o olhei por um instante esperando que ele compreendesse sozinho a verdade. - é difícil entender, mais ainda aceitar que a verdade é completamente diferente do que imaginamos.
- Mas o que as pessoas vão pensar sobre isso? - perguntou.
- As pessoas não devem saber sobre isso. - respondi. - É mais seguro para elas.
Ele parou para pensar no que havia dito. Era complicado ver desse modo, mas é certo que se as pessoas soubessem sobre o que existe escondido na noite as coisas iriam sair do seu eixo.
Ele baixou a cabeça e respirou fundo, em seguida veio me ajudar a colocar o corpo em um saco e limpar o local. Tivemos sorte, a polícia chegou muito tempo depois do acontecido.
- Você vai ter problemas com o que aconteceu ali. - falei.
- Não estou preocupado com isso - disse ele olhando para o lado de fora. - Você disse que ainda tem mais uma dessas coisas solta na cidade.
- Sim.
- Se lhe ajudar a pegar esse desgraçado, vai me contar a verdade?
- Você tem certeza que quer isso?
Ele olhou para mim irritado.
- Você é quem sabe...
Dirigi até uma estrada abandonada onde poderíamos fazer o funeral de forma adequada. Retiramos os corpos e preparamos a fogueira. - sempre preferi seguir o ritual romano nesses casos.
Enquanto a fogueira queimava, conversamos sobre o que ele queria saber. Sei que era muito para passar  a um garoto e, para falar a verdade, não sabia qual seria sua reação. Enquanto observamos o corpo queimar, ele assimilava cada uma das coisas com naturalidade - o que me deixava preocupado.
- Temos mais uma coisa para caçar - disse ele indo em direção ao carro. - E, no caso de eu vim a morrer essa noite, creme o meu corpo no mesmo ritual.
As palavras dele me lembraram meu tutor.

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